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Thursday, 8 August 2013

A luta silenciosa dos awá – e como apoiá-la

outras palavras
http://outraspalavras.net/blog/2013/08/05/a-luta-silenciosa-dos-awa-e-como-apoia-la/

A luta silenciosa dos awá – e como apoiá-la

130805-Salgado5Governo anuncia, enfim, operação para proteger território de índios nômades, quase desconhecidos e ameaçados por madeireiros. Para que iniciativa saia do papel, sociedade precisa pressionar
Por Taís González | Imagens: Sebastião Salgado
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, prometeu neste domingo (4/8): ainda neste semestre, segundo ele, o Estado brasileiro desencadeará operação conjunta para proteger os Awás-Guajás e seu território, no que resta do Floresta Amazônica no Maranhão. Ramo da etnia tupi, foram perseguidos intensamente, a partir do século 18. São quase desconhecidos pelos demais brasileiros. Estão reduzidos a cerca de 400 indivíduos – alguns dos quais isolados, sem contato algum com ocidentais. Ocupam um território de 116 mil hectares, um pouco menor que o município de São Paulo. São cada vez mais pressionados por madeireiros que destroem a selva, atacam os índios, transmitem doenças e já resistiram, a bala, a tentativas anteriores de desocupação pelo Estado.
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Povo quase dizimado, os Awá-Guajá não dominam o português, a agricultura e mal conhecem o valor do dinheiro. Vivem exclusivamente da floresta – como caçadores e coletores de frutas e mel. O fotógrafo Sebastião Salgado acaba de publicar uma série de fotos que fez com eles, com quem viveu por três semanas. Praticamente abandonados pelo Estado, foram considerados a “tribo mais ameaçada do mundo”, pela organização International Survival, que luta pela proteção de grupos indígenas isolados..
130805-Salgado3Atualmente, os Awás, juntamente com as etnias Ka’apor e Tembé, ocupam três áreas no Maranhão: a Terra Indígena Alto Turiaçu, a Terra Indígena Awá e a Terra Indígena Carú, formando um mosaico. Seu território, a Reserva Biológica do Gurupi, foi demarcada ainda em 1961, no governo Jânio Quadros – mas nunca protegido. A pressão dos madeireiros ilegais cresce, a ponto de terem emboscado Polícia Federal e Força Nacional, ano passado. Além disso, os índios são afetados pela Estrada de Ferro Carajás (EFC), e pelo Programa Grande Carajás. Implantado nos anos 80, ele dividiu a Reserva do Gurupi e atraiu os invasores.
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Os awás sentem os impactos do desenvolvimento. O silêncio na mata é fundamental para caçar, mas, por conta das motosserras e da ferrovia, os animais fogem e o que se escuta é o som da destruição. As aldeias mais próximas da via-férrea estão na Terra Indígena Caru e são as aldeias Awá e Tiracambú, distantes cerca de 1,1 km e 1,7 km, respectivamente.
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O futuro - Os Awá são considerados pela Funai um grupo de “contato recente”, o que sugere ser um coletivo que viva dentro de uma TI (Terra Indígena), cuja língua e modos de vida estão bastante ativos. Por isso, necessitam de auxílio e atenção especiais. A falta de uma política específica para este povo, leva a crer que grupos isolados, tão logo contatados, sejam também entregues à própria sorte, tal como estão as comunidades de contato recente.130805-Salgado9Estimativas apontam que, pelo menos, de 30% a 40% da reserva dos Awá esteja destruída pelo desmatamento. Entretanto, é impossível calcular a real dimensão do desmatamento, já que diversas espécies de árvores nobres são derrubadas no sistema “seletivo”, quando a floresta parece intocada, porém, as árvores previamente selecionadas são retiradas. Além dos madereiros e empresários, os Awá convivem hoje com outras ameaças, como os posseiros e os fazendeiros.
Recentemente o Exército desembarcou na região com 700 homens, numa operação com o Ibama, para reprimir o ataque à floresta e a produção de maconha em terras indígenas, reascendendo a esperança. O que encontraram foram abundantes provas do crime de desmatamento.130805-Salgado2Segundo o ministo da Justiça, a “desintrusão” – retirada dos não-índios do território – já está desenhada. Denomina-se “Operação Awá” e será executada em breve. Participarão Polícia Federal, Força Nacional, Funai e Incra. Camponeses que vivem na área há décadas, sem envolvimento com a mineração, serão encaminhados a assentamentos de reforma agrária.
Será suficiente? As décadas de descaso estatal, numa área de tamanho relativamente reduzido, permitem duvidar. Mas haverá diversas formas de acompanhar o assunto e pressionar o Estado brasileiro, nos próximos meses. Uma forma, ainda que singela, de agir desde já, é assinar, no site da Survival International, uma carta endereçada ao ministro da Justiça. Outras Palavras acompanhará o tema.
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Violência contra índios - O número de casos de “violência contra a pessoa” (ameaças de morte, homicídios, tentativas de assassinato, racismo, lesões corporal e violência sexual), que têm como alvo indígenas aumentou 237% em 2012, em relação ao ano anterior. Os dados foram publicados no “Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil”, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Diariamente índios são vítimas de discriminação, preconceito e marginalização. Sofrem todo tipo de violência, não bastasse o genocídio ocorrido há séculos. Por meio de constantes tentaivas de mudanças na Constituição Federal, como é o caso das PECs 215, 038, 237, do PL 1610 (mineração) e das portarias 303 e 308, seus direito são também violados por quem tem o dever de protegê-los, o Estado brasileiro.

Sunday, 5 May 2013

Estudar, vigiar e punir 'Entre os muros da escola'

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21901&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior_Especial__05052013


Estudar, vigiar e punir 'Entre os muros da escola'

Em uma escola da periferia parisiense, os vestígios do colonialismo francês se fazem presentes. Há adolescentes de vários países da África, do Oriente Médio e da Ásia. O professor de francês (branco) tentará ensinar aos alunos a língua de Voltaire e Rousseau, a língua do Iluminismo. No filme 'Entre os muros da escola' (2008), de Laurent Cantet, é preciso estudar, vigiar e punir.

Início do ano letivo Entre os muros da escola (2008), filme dirigido por Laurent Cantet. Título nada gratuito: é preciso estudar, vigiar e punir. Em uma sala de aula de uma escola da periferia parisiense, os vestígios do colonialismo francês se fazem presentes. Adolescentes de vários países da África, do Oriente Médio e da Ásia. O professor de francês (branco) tentará ensinar aos alunos a língua de Voltaire e Rousseau, a língua do Iluminismo. 

Como entender o projeto das Luzes sem mencionar o papel fundamental que a educação teria para a transformação da humanidade? O problema é que, via de regra, as luzes dos holofotes precisam conviver com as sombras que se insinuam. Que fazer com os povos “bárbaros” que não tiveram o bom quinhão de pertencer originariamente aos domínios franceses? Ora, é preciso colonizá-los, isto é, educá-los. 

No princípio eram os nomes dos alunos. “Vocês devem se apresentar uns para os outros”. Uma aluna árabe e espirituosa interpela o professor: 

− E quanto ao senhor? O senhor não vai nos dizer seu nome? Por que só nós precisamos nos apresentar? 

O processo de descolonização que se aprofundou após a Segunda Guerra trouxe à tona a percepção de que a diferença precisa ter voz. Os soldados coloniais não ajudaram os aliados a derrotar a eugenia de Hitler? Sendo assim, por que a civilização europeia continua a manter o etnocentrismo como uma de suas bases? Sem ter efetiva consciência do pano de fundo histórico que alicerça sua colocação, uma aluna negra interroga o gramático francês: 

− Professor, por que os nomes que o senhor utiliza nunca são africanos ou árabes? Por que sempre temos que ler algo sobre Bill ou Jean? 

Se o professor tivesse consciência do papel social a que é relegado, os muros da escola desvelariam a sala como mais uma cela de aula. Professor e carcereiro. É preciso levantar o braço para falar, é obrigatório ter autorização para ir ao banheiro, é rotineiro aprender tópicos anacrônicos e ossificados que não dialogam com as mudanças sociolinguísticas do francês pós-colonial: 

− Professor, se ninguém mais usa o imperfeito do subjuntivo para falar, por que nós estamos aprendendo isso? Ninguém fala assim. E por que o senhor nos recrimina quando falamos gírias? Por acaso os franceses não vão ao banheiro? Os senhores sempre defecam? Os senhores nunca cagam? 

Pedagogia do cárcere: o processo de ensino também fica emparedado Entre os muros da escola. 

A escolha do professor de francês como protagonista – ou pior, anti-herói – é certeira. A língua discrimina a nacionalidade, a classe social, o orador docente e os entediados ouvintes discentes. A língua conjuga o poder. Mas o contexto pós-colonial da segunda metade do século XX começa a questionar e a embaralhar os papeis hierárquicos antes nitidamente demarcados. Pais e alunos participam dos conselhos escolares. Para que o poder (escolar) continue a (re)produzir suas advertências e expulsões, é preciso ouvir o que o aluno tem a dizer em legítima defesa. Como muitos diretores e professores fazem questão de frisar, aluno, etimologicamente, é aquele que não tem luz – “a”, não, “luno”, luz –, aquele que, então, precisa aprender. Ainda que a pedagogia democrática postule o respeito à alteridade como um de seus princípios, será que a escola ilhada entre seus muros consegue efetivamente ressignificar e confrontar os processos de exclusão e discriminação? Enunciar que o ensino não é mais o vértice do processo pedagógico antes centrado no professor para falar sobre o processo de ensino-aprendizagem que passa a envolver os educandos na construção das práticas escolares realmente questiona de maneira radical a política hierárquica da instituição? Quando o diretor vai à cela de aula para apresentar um novo estudante à classe, todos precisam se levantar. É bem verdade que o diretor precisa minimamente se explicar, “pois o fato de vocês terem que se levantar não é sinal de humilhação ou de submissão, mas de respeito ao novo colega”. Mas a assimetria das posições permanece. Uma efetiva preparação e conformação para a realidade excludente que os muros da escola só fazem ressoar. 

O filme do diretor Laurent Cantet, nesse sentido, esgarça a ferida e aponta uma série de limitações para a implementação da democracia escolar que a pedagogia da alteridade pretende estabelecer. Ora, seria preciso derrubar os muros da escola para que a instituição fosse vista não como uma mônada fechada em si mesma, como um organismo que se constitui com suas próprias práticas, mas como um microcosmo que articula o e dispõe do conhecimento básico dos cidadãos: o que estudar, como estudar, como se portar – e ter que obedecer. Os estudantes bem sabem que não têm voz na escolha dos livros com que precisam se digladiar. Seus hábitos e conhecimentos locais são simplesmente abstraídos e preteridos pela escola. A educação industrial padroniza o conteúdo do ensino e a obediência discente. Tanto pior, então, se o aluno da periferia parisiense não se parecer com um francês considerado típico. 

Entre os muros da escola se aparta da idílica filmografia escolar hollywoodiana. Ao mestre com carinho: alunos rebeldes e desordeiros encontram um professor idealista e engajado que promove uma verdadeira revolução em sua sala de aula muitas vezes contra o conservadorismo da direção. O voluntarismo da indústria cinematográfica norte-americana é questionado frontalmente. Não se trata apenas de projetar a mudança institucional com um mero apelo à vontade e ao ímpeto. A inércia social não será combatida apenas com o amor à docência. Os alunos da periferia parisiense (e brasileira) já não veem sentido em suas aulas. A escola praticamente não lhes diz respeito. A pedagogia pretende insuflar democracia entre os muros escolares, mas em grande medida ainda não se deu conta de que a sala de aula continuará a reproduzir as clivagens sociais se o âmbito da mera enunciação não for superado. O educando aprende e entende que a diversidade étnica e cultural é uma conquista histórica fundamental que tenta romper com o etnocentrismo. Ao sair da escola, no entanto, a polícia promove mais uma batida e faz com que os alunos se prostrem diante dos mesmos muros escolares que há pouco lhes haviam prometido – e usurpado – liberdade, igualdade, fraternidade e, sobretudo, respeito à diversidade. 

*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será lançado no dia 20 de abril, às 17h, na livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, ao lado da estação Brigadeiro do metrô. Link com mais informações:http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2013/03/lancamento-do-livro-o-evangelho-segundo.html. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.