Showing posts with label cinema. Show all posts
Showing posts with label cinema. Show all posts

Sunday, 11 August 2013

‘Amistad’: O navio negreiro, porão do liberalismo

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22280&boletim_id=1576&componente_id=26968&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior_Especial__09082013


‘Amistad’: O navio negreiro, porão do liberalismo

A ironia, ou pior, o cinismo que movimenta a história humana batiza o navio negreiro com o fraterno nome de ‘Amistad’ (1997), filme dirigido por Steven Spielberg. Os escravos, a quem a ideologia reacionária chama de passivos e resignados, se rebelam no porão infecto. Sangue europeu começa a jorrar. Por Flávio Ricardo Vassoler

O navio negreiro singra através do Atlântico. Em seu porão, os cativos mal conseguem se esgueirar. A fome e as correntes os paralisam. Em meados do século XIX, a Inglaterra, polícia dos mares, havia decretado a proibição do tráfico de escravos. A mãe da Revolução Industrial queria o implemento do livre comércio e do trabalho assalariado para que suas manufaturas pudessem colonizar o mundo de um modo menos bárbaro – os feitores dão lugar aos industriais e financistas. Só faltou avisar aos ingleses que seu vastíssimo império colonial, ao longo de cujo horizonte o sol não se punha, tamanha a sua extensão de oeste a leste do planeta, não poderia participar dos primórdios do liberalismo em pé de igualdade com os gentlemen de Londres. Mas se, como quer Adam Smith, a mão invisível conduz as relações de mercado a um bom termo de equilíbrio, a vista grossa permite que o livre comércio seja forjado sobre o dorso cativo da África. 

A ironia, ou pior, o cinismo que movimenta a história humana batiza o navio negreiro com o fraterno nome de ‘Amistad’ (1997), filme dirigido por Steven Spielberg. Os escravos, a quem a ideologia reacionária chama de passivos e resignados, se rebelam no porão infecto. Sangue europeu começa a jorrar. Logo os espanhóis que comandam o barco viram reféns. Os cativos libertos por seu próprio destemor querem voltar para casa. Mas eles não conhecem as técnicas náuticas e precisam confiar nos antigos algozes para que o navio retorne. Ora, os espanhóis dolosos conduzem o Amistad rumo aos Estados Unidos escravocratas. A rebelião negra logo será julgada por magistrados brancos. 

As queixas e contradições se sobrepõem. A rainha da Espanha sentencia que os escravos lhe pertencem. Os comandantes espanhóis dizem que os cativos haviam nascido em Cuba, colônia espanhola, e que, por isso, “nós não estamos exercendo a prática ilegal do tráfico negreiro. Assim, os escravos nos pertencem”. Os marinheiros norte-americanos, por sua vez, declaram que foram eles que identificaram o barco – “navio negreiro, sem dúvida” – e que, por isso, “somos os novos proprietários da mercadoria humana”. Os mais interessados na questão não podem se pronunciar. Os escravos assistem ainda uma vez acorrentados à deliberação alheia de seu próprio destino. 

O contexto histórico em que a disputa judicial se dá não poderia ser mais explosivo. O judiciário se vê premido pelas demandas do executivo, uma vez que o presidente procura manobrar a questão para evitar um recrudescimento das rivalidades entre o norte industrial e o sul escravista. O espectro da guerra civil ameaça cindir os Estados Unidos. 

− Mas esses negros devem ser punidos, eles chacinaram os brancos que os conduziam para Cuba, onde está a justiça neste país?! – berra o promotor que bem poderia iniciar um abaixo-assinado (extra)oficial para a formação da futura Klu Klux Klan. 

Além do ódio pelos sequestradores que lhes transformaram de homens livres em escravos, que mais teria insuflado o ímpeto de vingança dos cativos contra seus algozes? 

A armada inglesa, polícia dos mares, prendia os traficantes de escravos Atlântico afora. Quando os espanhóis se deram conta de que as tropas da rainha Vitória se acercavam do navio, um velho expediente foi utilizado para que o fardo humano transportado pelo Amistad não ultrapassasse os limites legais para o enquadramento da carga como um contingente de escravos. Entre os 100 africanos, 50 são escolhidos – seleção eugênica que aguilhoa sobretudo mulheres e crianças, os menos aptos para o trabalho na lavoura. (Os nazistas, parentes não tão distantes dos escravocratas, herdariam dos ancestrais o ímpeto pela seleção natural historicamente configurada.) Os 50 mais fortes devem se postar como plateia para aprender in loco a pedagogia do pelourinho. Os escolhidos são acorrentados uns aos outros. Uma rede repleta de pedras pesadíssimas puxará o comboio humano oceano abaixo. Quando o algoz espanhol abre um compartimento do convés e arremessa a rede repleta de pedra contra o mar, um a um os escravos são afogados. (Enquanto os fazendeiros sulistas dormem o sono dos justos e contam carneirinhos tão brancos quanto o algodão colhido por seus escravos, os africanos sobreviventes contam, uma a uma, as 50 ovelhas negras afogadas como bodes expiatórios.) Reiteremos, agora, a acusação (aos berros) do promotor de justiça: 

− Esses negros devem ser punidos, eles chacinaram os brancos que os conduziam para Cuba, onde está a justiça neste país?! 

Quando a senzala incinera a casa grande e transforma o Mississippi em chamas, apenas ocorre a devolução da nota promissória que sequer foi entregue àqueles condenados a trabalhar gratuita e compulsoriamente. 

Mas eis que o liberalismo dos fundadores dos Estados Unidos da América agora se expressa na figura do ilustre John Quincy Adams, sexto presidente dos Estados Unidos e filho do também presidente John Adams. Adams Jr. vem à tona como advogado de defesa dos cativos da Amistad espanhola. Em suas mãos, há um artigo de um político sulista que procura legitimar a escravidão. O ex-presidente dos EUA, como Sócrates, narra a cadeia de argumentos contrários antes de refutá-la cabalmente: 

− Diz o sulista em questão que a escravidão não é contrária à natureza humana, pois para onde quer que olhemos, seja para a história mundana, seja para os textos bíblicos, encontraremos exemplos que atestam que sempre houve subordinação entre os homens – líderes e liderados, senhores e escravos. Hierarquia. Assim, a escravidão não é pecaminosa ou má, mas a corroboração da tradição histórica, sua mais coerente expressão. 

John Quincy Adams, rematado orador, cala as palavras por um sutil lapso de tempo para que os jurados e os espectadores se preparem para – e anseiem por – sua contraposição:

− No entanto, o político sulista agora não mais em questão, mas em xeque, não consegue explicar por que os homens só fazem se rebelar quando se veem privados de sua propriedade mais natural, qual seja, a liberdade. Do contrário, não haveria choro, ranger de dentes, fúria e revolta diante dos feitores. Os homens aceitariam o quinhão do cativeiro de bom grado. Mas a experiência – o mesmo transcurso histórico advogado pelo sulista escravocrata – me autoriza a dizer que o homem vem da liberdade e para ela sempre propende. Tudo o mais é fruto da tirania e do arbítrio que pretende transformar a lógica de uns poucos no cárcere de quase todos. 

Hollywood e suas pesquisas de mercado – essenciais para transformar filmes em demandas artísticas que ratifiquem em termos de bilheteria os investimentos milionários – gostam da grandiloquência que leva o público às lágrimas. A realidade ficcional realiza a justiça para que a realidade histórica permaneça e se reproduza tal como está. Que dizer sobre o liberalismo de John Quincy Adams quando sabemos que o ex-presidente foi um dos principais idealizadores da Doutrina Monroe? Assim falou o presidente James Monroe: “Julgarmos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e os interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência européia”. O México, a América Central e a América do Sul bem sabem que a polícia do continente deixou de ser europeia para se tornar estanunidense. A América para os americanos – do norte. Mas, a despeito do entretenimento administrado de Hollywood, o liberalismo abolicionista foi o primeiro aríete para a luta pelos direitos civis nos EUA sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. O judeu Steven Spielberg bem sabe que a lógica do navio negreiro escreveu o prefácio histórico para as câmaras de gás de Auschwitz, Dachau e Treblinka. Nesse sentido, ‘Amistad’ não nos traz apenas a cínica contiguidade entre a amizade e a escravidão, mas insufla ar redivivo para pensarmos, narrativamente, sobre feridas históricas que nossos tempos ainda não conseguiram cicatrizar. 


*Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. 

Tuesday, 9 July 2013

Estudar, vigiar e punir 'Entre os muros da escola'

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21901&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior_Especial__072013


Estudar, vigiar e punir 'Entre os muros da escola'

Em uma escola da periferia parisiense, os vestígios do colonialismo francês se fazem presentes. Há adolescentes de vários países da África, do Oriente Médio e da Ásia. O professor de francês (branco) tentará ensinar aos alunos a língua de Voltaire e Rousseau, a língua do Iluminismo. No filme 'Entre os muros da escola' (2008), de Laurent Cantet, é preciso estudar, vigiar e punir.

Início do ano letivo Entre os muros da escola (2008), filme dirigido por Laurent Cantet. Título nada gratuito: é preciso estudar, vigiar e punir. Em uma sala de aula de uma escola da periferia parisiense, os vestígios do colonialismo francês se fazem presentes. Adolescentes de vários países da África, do Oriente Médio e da Ásia. O professor de francês (branco) tentará ensinar aos alunos a língua de Voltaire e Rousseau, a língua do Iluminismo. 

Como entender o projeto das Luzes sem mencionar o papel fundamental que a educação teria para a transformação da humanidade? O problema é que, via de regra, as luzes dos holofotes precisam conviver com as sombras que se insinuam. Que fazer com os povos “bárbaros” que não tiveram o bom quinhão de pertencer originariamente aos domínios franceses? Ora, é preciso colonizá-los, isto é, educá-los. 

No princípio eram os nomes dos alunos. “Vocês devem se apresentar uns para os outros”. Uma aluna árabe e espirituosa interpela o professor: 

− E quanto ao senhor? O senhor não vai nos dizer seu nome? Por que só nós precisamos nos apresentar? 

O processo de descolonização que se aprofundou após a Segunda Guerra trouxe à tona a percepção de que a diferença precisa ter voz. Os soldados coloniais não ajudaram os aliados a derrotar a eugenia de Hitler? Sendo assim, por que a civilização europeia continua a manter o etnocentrismo como uma de suas bases? Sem ter efetiva consciência do pano de fundo histórico que alicerça sua colocação, uma aluna negra interroga o gramático francês: 

− Professor, por que os nomes que o senhor utiliza nunca são africanos ou árabes? Por que sempre temos que ler algo sobre Bill ou Jean? 

Se o professor tivesse consciência do papel social a que é relegado, os muros da escola desvelariam a sala como mais uma cela de aula. Professor e carcereiro. É preciso levantar o braço para falar, é obrigatório ter autorização para ir ao banheiro, é rotineiro aprender tópicos anacrônicos e ossificados que não dialogam com as mudanças sociolinguísticas do francês pós-colonial: 

− Professor, se ninguém mais usa o imperfeito do subjuntivo para falar, por que nós estamos aprendendo isso? Ninguém fala assim. E por que o senhor nos recrimina quando falamos gírias? Por acaso os franceses não vão ao banheiro? Os senhores sempre defecam? Os senhores nunca cagam? 

Pedagogia do cárcere: o processo de ensino também fica emparedado Entre os muros da escola. 

A escolha do professor de francês como protagonista – ou pior, anti-herói – é certeira. A língua discrimina a nacionalidade, a classe social, o orador docente e os entediados ouvintes discentes. A língua conjuga o poder. Mas o contexto pós-colonial da segunda metade do século XX começa a questionar e a embaralhar os papeis hierárquicos antes nitidamente demarcados. Pais e alunos participam dos conselhos escolares. Para que o poder (escolar) continue a (re)produzir suas advertências e expulsões, é preciso ouvir o que o aluno tem a dizer em legítima defesa. Como muitos diretores e professores fazem questão de frisar, aluno, etimologicamente, é aquele que não tem luz – “a”, não, “luno”, luz –, aquele que, então, precisa aprender. Ainda que a pedagogia democrática postule o respeito à alteridade como um de seus princípios, será que a escola ilhada entre seus muros consegue efetivamente ressignificar e confrontar os processos de exclusão e discriminação? Enunciar que o ensino não é mais o vértice do processo pedagógico antes centrado no professor para falar sobre o processo de ensino-aprendizagem que passa a envolver os educandos na construção das práticas escolares realmente questiona de maneira radical a política hierárquica da instituição? Quando o diretor vai à cela de aula para apresentar um novo estudante à classe, todos precisam se levantar. É bem verdade que o diretor precisa minimamente se explicar, “pois o fato de vocês terem que se levantar não é sinal de humilhação ou de submissão, mas de respeito ao novo colega”. Mas a assimetria das posições permanece. Uma efetiva preparação e conformação para a realidade excludente que os muros da escola só fazem ressoar. 

O filme do diretor Laurent Cantet, nesse sentido, esgarça a ferida e aponta uma série de limitações para a implementação da democracia escolar que a pedagogia da alteridade pretende estabelecer. Ora, seria preciso derrubar os muros da escola para que a instituição fosse vista não como uma mônada fechada em si mesma, como um organismo que se constitui com suas próprias práticas, mas como um microcosmo que articula o e dispõe do conhecimento básico dos cidadãos: o que estudar, como estudar, como se portar – e ter que obedecer. Os estudantes bem sabem que não têm voz na escolha dos livros com que precisam se digladiar. Seus hábitos e conhecimentos locais são simplesmente abstraídos e preteridos pela escola. A educação industrial padroniza o conteúdo do ensino e a obediência discente. Tanto pior, então, se o aluno da periferia parisiense não se parecer com um francês considerado típico. 

Entre os muros da escola se aparta da idílica filmografia escolar hollywoodiana. Ao mestre com carinho: alunos rebeldes e desordeiros encontram um professor idealista e engajado que promove uma verdadeira revolução em sua sala de aula muitas vezes contra o conservadorismo da direção. O voluntarismo da indústria cinematográfica norte-americana é questionado frontalmente. Não se trata apenas de projetar a mudança institucional com um mero apelo à vontade e ao ímpeto. A inércia social não será combatida apenas com o amor à docência. Os alunos da periferia parisiense (e brasileira) já não veem sentido em suas aulas. A escola praticamente não lhes diz respeito. A pedagogia pretende insuflar democracia entre os muros escolares, mas em grande medida ainda não se deu conta de que a sala de aula continuará a reproduzir as clivagens sociais se o âmbito da mera enunciação não for superado. O educando aprende e entende que a diversidade étnica e cultural é uma conquista histórica fundamental que tenta romper com o etnocentrismo. Ao sair da escola, no entanto, a polícia promove mais uma batida e faz com que os alunos se prostrem diante dos mesmos muros escolares que há pouco lhes haviam prometido – e usurpado – liberdade, igualdade, fraternidade e, sobretudo, respeito à diversidade. 

*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será lançado no dia 20 de abril, às 17h, na livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, ao lado da estação Brigadeiro do metrô. Link com mais informações:http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2013/03/lancamento-do-livro-o-evangelho-segundo.html. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. 

Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21866&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior_Especial__072013


Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda

‘Tiros em Ruanda’ (2005), filme dirigido por Michael Caton-Jones, narra o caos legado pelos antigos colonizadores belgas. Consta que antes da chegada dos europeus, não havia hostilidade entre tutsis e hutus. Mas era preciso dividir para reinar.

“Ruanda, 1994. Durante 30 anos, o governo da maioria (étnica) hutu perseguiu a minoria tutsi. Sob pressão do Ocidente, o presidente hutu concordou, não sem relutância, em dividir o poder com os tutsis. A ONU enviou uma pequena força à capital Kigali para monitorar a frágil paz”. 

Eis a epígrafe de Tiros em Ruanda (2005), filme dirigido por Michael Caton-Jones. Eis o caos legado pelos antigos colonizadores belgas. Consta que antes da chegada dos europeus, não havia hostilidade entre tutsis e hutus. Mas é preciso dividir para reinar. Assim, os belgas decidem arregimentar entre os nativos os negros com traços menos africanos para estabelecer um governo colonizador híbrido. Administração eugênica: os tutsis seriam mais altos, teriam narizes mais afilados. Segundo os parâmetros protonazistas dos colonizadores, não poderiam ser considerados europeus, mas tampouco seriam rebaixados a hutus. “Sub-humanos” elevados a cargos administrativos sob a tutela belga. 

Com o processo de descolonização do continente africano após a Segunda Guerra, os belgas saíram de cena. A maioria hutu, então, começou a dar vazão ao ressentimento colonial. Já que os europeus não poderiam ser batidos, que tal aniquilar a minoria étnica que tratava os hutus como escravos? Outrora apêndices dos senhores brancos, os tutsis passaram a ser chamados de baratas. (No que os hutus se mostraram bons estudantes de história: afinal, o antissemitismo europeu não tratara os judeus como piolhos?) Que fazemos com as baratas? Os leitores de Franz Kafka bem conhecem as agruras pelas quais o jovem Gregor Samsa teve que passar após sofrer A metamorfose (1915) que o transformou em um inseto.

− Inseto tutsi! – arrematariam os genocidas hutus munidos de seus facões ensanguentados. 

Em abril de 1994, um golpe de Estado hutu faz a paz se esgueirar entre os escombros. Os tutsis tentarão rezar, mas logo haverá bem mais do que choro e ranger de dentes. As comportas do caos serão abertas. Haverá o silêncio impassível de mais de 800 mil cadáveres étnicos. 

Uma Escola Técnica Oficial (ETO) se transforma em base para os soldados da ONU e em inusitado campo de refugiados tutsis. Os soldados irão intervir no massacre? Corpos e mais corpos retalhados se amontoam ao redor da ETO. Os hutus desconhecem a matança clínica e industrial dos campos de concentração europeus. Os facões picam os corpos como outrora cortavam a relva pela mão dos escravos que agora só querem retaliação. Os soldados da ONU irão intervir no massacre? 

− Não somos pacificadores, isto é, não estamos aqui para manter a paz. Estamos aqui para observá-la e monitorá-la. Só podemos disparar em legítima defesa. E a utilização das metralhadoras requer autorização prévia do comando subordinado ao Conselho de Segurança. 

A Organização das Nações Unidas protege os direitos humanos: os 40 europeus que haviam se refugiado na ETO logo são levados ao aeroporto de Kigali sob forte escolta da Legião Francesa. A Organização das Nações Unidas vela os detritos humanos: os tutsis sitiados na ETO ficarão sob a proteção dos soldados até que o alto comando faça os militares bater em retirada. Então, os rebeldes poderão cruzar os portões para cumprir os desígnios da rádio hutu: 

− Quem vai encher os túmulos vazios? As baratas estão escondidas nas igrejas! As baratas estão escondidas nas escolas! 

Mas não, não: os soldados irão intervir no massacre. Os cachorros ruandeses – o manual do colonizador não especificou se os cães seriam tutsis ou hutus – começam a devorar os cadáveres. “Eis um risco gravíssimo de contaminação!” O capitão pede ao padre, o responsável pela ETO, que acalme os tutsis ainda vivos. “Vamos atirar nos cães. Eles não podem continuar a devorar os mortos. Para que não haja pânico, avise a todos que, por ora, os tiros serão amigos”. Enfurecido diante de um mundo que seu Deus parece ter abandonado, o padre prega ao capitão não o Sermão da Montanha, mas o Sermão da Estepe: 

− Vocês não têm permissão para atirar apenas em legítima defesa? Por que então pretendem alvejar os cães? Acaso eles lhes fizeram algum mal? Os cadáveres não podem mais comer, mas os cachorros ainda sentem fome – os cães que vocês querem matar e os cachorros humanos. Os cães não sabem que estão comendo seres humanos. Mas os tutsis sabem que serão devorados.

O clérigo tenta romper a inércia da ONU de todas as formas. Jornalistas já não se interessam pelo destino dos tutsis. “Afinal, o que há de novo em uma guerra civil africana?” Mas as câmeras se põem a postos quando o padre revela que há europeus na ETO. Enquanto Ruanda sangra aos olhos indiferentes do Ocidente, a Bósnia ariana recebe as forças de intervenção das Nações Unidas. Uma jornalista inglesa apresenta o critério de seleção das notícias mundo afora: 

− Sempre que eu via uma mulher bósnia, uma mulher branca, eu sentia que ela poderia ser minha mãe. Aqui em Ruanda são só africanos. 

Mas a repórter ainda tem tempo para se armar com o microfone e transferir o ônus do genocídio para o capitão inerte da ONU: 

REPÓRTER: O senhor qualificaria as ações da maioria étnica hutu como um genocídio? 

CAPITÃO (belga) DA ONU: (Hesita e gagueja antes de falar): Não sei exatamente, seria preciso quantificar as mortes. De qualquer forma, estamos aqui para observar a paz. 

A paz entre os cadáveres – e o cães. 

REPÓRTER: Mas o senhor sabe que, se estivermos diante de um genocídio, a ONU tem a obrigação de intervir... (As reticências tentam apresentar ao leitor e potencial espectador de Tiros em Ruanda a interrupção abrupta da entrevista por conta do punho do capitão contra a câmera.) 

Mas ainda há tempo para agir: enfim o capitão recebe ordens de seu alto comando. “É hora de partir, padre”. Se o militar se lembrasse das aulas de catecismo, teria uma citação evangélica na ponta da língua para fazer com que Jesus Cristo caminhasse não sobre as águas, mas sobre os corpos de Ruanda: 

− É hora de partir, padre. Deixemos que os mortos enterrem os mortos. 

Mas ainda há tempo para suplicar: um representante tutsi se dirige ao capitão da ONU com uma carta. “Um último pedido, capitão”. 

− Nós, refugiados tutsis da Escola Técnica Oficial, suplicamos aos soldados das Nações Unidas que nos fuzilem. Será muito mais rápido e indolor do que morrer sob os facões hutus. Por favor, matem primeiro nossas crianças, poupem-nas do sofrimento! 

A câmera dá um close no rosto do capitão belga. 

Os tutsis revisitam a descoberta dos prisioneiros de Auschwitz: em campos de concentração e de refugiados, a morte deixa de ser uma temeridade. A morte redime. 

A câmera continua a dar um close na máscara do capitão da ONU. 

O último pedido dos condenados ruandeses não poderá ser realizado. Afinal, as Nações Unidas não empregam assassinos. Monitorar a paz implica não fazer a guerra. Monitorar a paz implica terceirizar a guerra. O capitão belga não fará as pazes com o passado imperialista de sua nação. Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda. 


*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será lançado no dia 20 de abril, às 18h, na livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, ao lado da estação Brigadeiro do metrô. Link com mais informações:http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2013/03/lancamento-do-livro-o-evangelho-segundo.html. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. 

Dedico este texto à minha querida amiga Vânya Tsutsui, que neste momento trabalha em Ruanda para que tutsis e hutus convivam pacificamente apesar da Lei de Talião que o colonizador europeu lhes legou.
 

Sunday, 12 May 2013

TINTIN

TINTIN
personagem criada pelo belga Georges Remi (1907 - 1983), mais conhecido como Hergé. Suas histórias em quadrinhos é motivo de preconeitos, racismos e colonialismos.









***

http://en.wikipedia.org/wiki/The_Adventures_of_Tintin

Controversy [edit]

The earliest stories in The Adventures of Tintin have been criticised[49][50] for both displaying animal cruelty as well as racial stereotypes, violent, colonialist, and even fascist leanings, including caricatured portrayals of non-Europeans (Ethnocentrism). While the Hergé Foundation has presented such criticism as naïveté,[51] and scholars of Hergé such as Harry Thompson have claimed that "Hergé did what he was told by the Abbé Wallez",[51] Hergé himself felt that his background made it impossible to avoid prejudice, stating that "I was fed the prejudices of the bourgeois society that surrounded me."[29]
In Tintin in the Land of the Soviets, the Bolsheviks were presented without exception as villains. Hergé drew on Moscow Unveiled, a work given to him by Wallez and authored by Joseph Douillet, the former Belgian consul in Russia, that is highly critical of the Soviet regime, although Hergé contextualised this by noting that in Belgium, at the time a devout Catholic nation, "Anything Bolshevik was atheist".[29] In the story, Bolshevik leaders are motivated only by personal greed and by a desire to deceive the world. Tintin discovers, buried, "the hideout where Lenin, Trotsky, and Stalin have collected together wealth stolen from the people". Hergé later dismissed the failings of this first story as "a transgression of my youth".[51] By 1999, some part of this presentation was being noted as far more reasonable, with British weekly newspaper The Economist declaring, "In retrospect, however, the land of hunger and tyranny painted by Hergé was uncannily accurate".[52]
Tintin in the Congo has been criticised as presenting the Africans as naïve and primitive. In the original work, Tintin is shown at a blackboard addressing a class of African children. "Mes chers amis," he says, "je vais vous parler aujourd'hui de votre patrie: La Belgique" ("My dear friends, I am going to talk to you today about your fatherland: Belgium"). Hergé redrew this in 1946 to show a lesson in mathematics.[53][54] Hergé later admitted the flaws in the original story, excusing it by saying, "I portrayed these Africans according to ... this purely paternalistic spirit of the time".[29] The perceived problems with this book were summarised by Sue Buswell in 1988[55] as being "all to do with rubbery lips and heaps of dead animals" although Thompson noted this quote may have been "taken out of context".[51] "Dead animals" refers to the fashion for big game hunting at the time of the work's original publication.
Drawing on André Maurois' Les Silences du colonel Bramble, Hergé presents Tintin as a big-game hunter, accidentally killing fifteen antelope as opposed to the one needed for the evening meal. However, concerns over the number of dead animals did lead the Scandinavian publishers of Tintin's adventures to request changes. A page which presented Tintin killing a rhinoceros by drilling a hole in the animal's back and inserting a stick of dynamite was deemed excessive, and Hergé substituted a page in which the rhino accidentally discharges Tintin's rifle while he slept under a tree.[37] In 2007 the UK's Commission for Racial Equality called for the book to be pulled from the shelves after a complaint, stating that "it beggars belief that in this day and age that any shop would think it acceptable to sell and display 'Tintin In The Congo'."[56][57] In August 2007, a complaint was filed in Brussels, Belgium, by a Congolese student, claiming the book was an insult to the Congolese people. Public prosecutors are investigating, however, Belgium's Centre for Equal Opportunities warned against "over-reaction and hyper political correctness".[58]
Some of the early albums were altered by Hergé in subsequent editions, usually at the demand of publishers. For example, at the instigation of his American publishers, many of the black characters inTintin in America were re-coloured to make their race white or ambiguous.[59] The Shooting Star originally had an American villain with the Jewish surname of "Blumenstein". This proved to be controversial, as the character exhibited exaggerated stereotypically Jewish characteristics. "Blumenstein" was changed to an American with a less ethnically specific name, Mr. Bohlwinkel, in later editions and subsequently to a South American of a fictional country – São Rico. Hergé later discovered that 'Bohlwinkel' was also a Jewish name.[26]


TINTIN
filme dirigido pelo Spielberg - 2011
Secret of the Unicorn


*

Sunday, 5 May 2013

Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21866&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior_Especial__05052013


Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda

‘Tiros em Ruanda’ (2005), filme dirigido por Michael Caton-Jones, narra o caos legado pelos antigos colonizadores belgas. Consta que antes da chegada dos europeus, não havia hostilidade entre tutsis e hutus. Mas era preciso dividir para reinar.

“Ruanda, 1994. Durante 30 anos, o governo da maioria (étnica) hutu perseguiu a minoria tutsi. Sob pressão do Ocidente, o presidente hutu concordou, não sem relutância, em dividir o poder com os tutsis. A ONU enviou uma pequena força à capital Kigali para monitorar a frágil paz”. 

Eis a epígrafe de Tiros em Ruanda (2005), filme dirigido por Michael Caton-Jones. Eis o caos legado pelos antigos colonizadores belgas. Consta que antes da chegada dos europeus, não havia hostilidade entre tutsis e hutus. Mas é preciso dividir para reinar. Assim, os belgas decidem arregimentar entre os nativos os negros com traços menos africanos para estabelecer um governo colonizador híbrido. Administração eugênica: os tutsis seriam mais altos, teriam narizes mais afilados. Segundo os parâmetros protonazistas dos colonizadores, não poderiam ser considerados europeus, mas tampouco seriam rebaixados a hutus. “Sub-humanos” elevados a cargos administrativos sob a tutela belga. 

Com o processo de descolonização do continente africano após a Segunda Guerra, os belgas saíram de cena. A maioria hutu, então, começou a dar vazão ao ressentimento colonial. Já que os europeus não poderiam ser batidos, que tal aniquilar a minoria étnica que tratava os hutus como escravos? Outrora apêndices dos senhores brancos, os tutsis passaram a ser chamados de baratas. (No que os hutus se mostraram bons estudantes de história: afinal, o antissemitismo europeu não tratara os judeus como piolhos?) Que fazemos com as baratas? Os leitores de Franz Kafka bem conhecem as agruras pelas quais o jovem Gregor Samsa teve que passar após sofrer A metamorfose (1915) que o transformou em um inseto.

− Inseto tutsi! – arrematariam os genocidas hutus munidos de seus facões ensanguentados. 

Em abril de 1994, um golpe de Estado hutu faz a paz se esgueirar entre os escombros. Os tutsis tentarão rezar, mas logo haverá bem mais do que choro e ranger de dentes. As comportas do caos serão abertas. Haverá o silêncio impassível de mais de 800 mil cadáveres étnicos. 

Uma Escola Técnica Oficial (ETO) se transforma em base para os soldados da ONU e em inusitado campo de refugiados tutsis. Os soldados irão intervir no massacre? Corpos e mais corpos retalhados se amontoam ao redor da ETO. Os hutus desconhecem a matança clínica e industrial dos campos de concentração europeus. Os facões picam os corpos como outrora cortavam a relva pela mão dos escravos que agora só querem retaliação. Os soldados da ONU irão intervir no massacre? 

− Não somos pacificadores, isto é, não estamos aqui para manter a paz. Estamos aqui para observá-la e monitorá-la. Só podemos disparar em legítima defesa. E a utilização das metralhadoras requer autorização prévia do comando subordinado ao Conselho de Segurança. 

A Organização das Nações Unidas protege os direitos humanos: os 40 europeus que haviam se refugiado na ETO logo são levados ao aeroporto de Kigali sob forte escolta da Legião Francesa. A Organização das Nações Unidas vela os detritos humanos: os tutsis sitiados na ETO ficarão sob a proteção dos soldados até que o alto comando faça os militares bater em retirada. Então, os rebeldes poderão cruzar os portões para cumprir os desígnios da rádio hutu: 

− Quem vai encher os túmulos vazios? As baratas estão escondidas nas igrejas! As baratas estão escondidas nas escolas! 

Mas não, não: os soldados irão intervir no massacre. Os cachorros ruandeses – o manual do colonizador não especificou se os cães seriam tutsis ou hutus – começam a devorar os cadáveres. “Eis um risco gravíssimo de contaminação!” O capitão pede ao padre, o responsável pela ETO, que acalme os tutsis ainda vivos. “Vamos atirar nos cães. Eles não podem continuar a devorar os mortos. Para que não haja pânico, avise a todos que, por ora, os tiros serão amigos”. Enfurecido diante de um mundo que seu Deus parece ter abandonado, o padre prega ao capitão não o Sermão da Montanha, mas o Sermão da Estepe: 

− Vocês não têm permissão para atirar apenas em legítima defesa? Por que então pretendem alvejar os cães? Acaso eles lhes fizeram algum mal? Os cadáveres não podem mais comer, mas os cachorros ainda sentem fome – os cães que vocês querem matar e os cachorros humanos. Os cães não sabem que estão comendo seres humanos. Mas os tutsis sabem que serão devorados.

O clérigo tenta romper a inércia da ONU de todas as formas. Jornalistas já não se interessam pelo destino dos tutsis. “Afinal, o que há de novo em uma guerra civil africana?” Mas as câmeras se põem a postos quando o padre revela que há europeus na ETO. Enquanto Ruanda sangra aos olhos indiferentes do Ocidente, a Bósnia ariana recebe as forças de intervenção das Nações Unidas. Uma jornalista inglesa apresenta o critério de seleção das notícias mundo afora: 

− Sempre que eu via uma mulher bósnia, uma mulher branca, eu sentia que ela poderia ser minha mãe. Aqui em Ruanda são só africanos. 

Mas a repórter ainda tem tempo para se armar com o microfone e transferir o ônus do genocídio para o capitão inerte da ONU: 

REPÓRTER: O senhor qualificaria as ações da maioria étnica hutu como um genocídio? 

CAPITÃO (belga) DA ONU: (Hesita e gagueja antes de falar): Não sei exatamente, seria preciso quantificar as mortes. De qualquer forma, estamos aqui para observar a paz. 

A paz entre os cadáveres – e o cães. 

REPÓRTER: Mas o senhor sabe que, se estivermos diante de um genocídio, a ONU tem a obrigação de intervir... (As reticências tentam apresentar ao leitor e potencial espectador de Tiros em Ruanda a interrupção abrupta da entrevista por conta do punho do capitão contra a câmera.) 

Mas ainda há tempo para agir: enfim o capitão recebe ordens de seu alto comando. “É hora de partir, padre”. Se o militar se lembrasse das aulas de catecismo, teria uma citação evangélica na ponta da língua para fazer com que Jesus Cristo caminhasse não sobre as águas, mas sobre os corpos de Ruanda: 

− É hora de partir, padre. Deixemos que os mortos enterrem os mortos. 

Mas ainda há tempo para suplicar: um representante tutsi se dirige ao capitão da ONU com uma carta. “Um último pedido, capitão”. 

− Nós, refugiados tutsis da Escola Técnica Oficial, suplicamos aos soldados das Nações Unidas que nos fuzilem. Será muito mais rápido e indolor do que morrer sob os facões hutus. Por favor, matem primeiro nossas crianças, poupem-nas do sofrimento! 

A câmera dá um close no rosto do capitão belga. 

Os tutsis revisitam a descoberta dos prisioneiros de Auschwitz: em campos de concentração e de refugiados, a morte deixa de ser uma temeridade. A morte redime. 

A câmera continua a dar um close na máscara do capitão da ONU. 

O último pedido dos condenados ruandeses não poderá ser realizado. Afinal, as Nações Unidas não empregam assassinos. Monitorar a paz implica não fazer a guerra. Monitorar a paz implica terceirizar a guerra. O capitão belga não fará as pazes com o passado imperialista de sua nação. Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda. 


*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será lançado no dia 20 de abril, às 18h, na livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, ao lado da estação Brigadeiro do metrô. Link com mais informações:http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2013/03/lancamento-do-livro-o-evangelho-segundo.html. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. 

Dedico este texto à minha querida amiga Vânya Tsutsui, que neste momento trabalha em Ruanda para que tutsis e hutus convivam pacificamente apesar da Lei de Talião que o colonizador europeu lhes legou.