Showing posts with label mia couto. Show all posts
Showing posts with label mia couto. Show all posts

Sunday, 28 July 2013

MIA COUTO No livro "Antes de Nascer o Mundo"

Não chegamos mesmo a viver durante a maior parte da vida. Desperdiçamo-nos num espraiada letargia a que, para nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. No resto, vamos vagalumeando, acesos por breves intermitências.

Uma vida inteira pode ser virada do avesso num só dia dessas intermitências.

MIA COUTO
No livro "Antes de Nascer o Mundo"


*

Sunday, 14 July 2013

mia couto - sonho

O que faz andar a estrada? 
É o sonho.
Enquanto a gente sonhar,
a estrada permanecerá viva.

(Mia Couto)

foto: Jonas Bendiksen
*



Friday, 12 July 2013

mia couto - esperança


Há também uma estrada 
que passa por dentro de nós 
- a estrada da esperança

MIA COUTO



Monday, 27 May 2013

mia couto - dia de áfrica


29 de maio, Dia de África
COMPANHEIROS

quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros

MIA COUTO
No livro "Raiz de Orvalho e outros poemas"

Sunday, 12 May 2013

Autobiografia de Mia Couto

Autobiografia de Mia Couto



"Nasci na Beira em 1955, sou filho de uma família de emigrantes portugueses que chegaram a Moçambique no princípio dessa década de 50. O meu pai era jornalista e era poeta. Ele publicou cinco ou seis títulos em Moçambique, uma poesia pouco íntima, mas também dois dos livros foram livros que tentaram ser livros de preocupação social, em relação ao conflito da situação existente em Moçambique. Mas eram livros em que a consciência política era mais antifascista, liberal, democrática, mas não questionando ainda a questão colonial. A família do meu pai é gente que enriqueceu um pouco no período da guerra, com garagens, e tinham portanto negócios ligados a automóveis. Eram do Porto.

O meu pai foi para África porque acho que ele queria seguir a carreira jornalística e não havia muita hipótese de emprego nessa altura em Portugal, penso que foi por isso. Mas havia também uma sensação de que eles precisavam de mais espaço, precisavam de começar uma coisa nova. A minha mãe vem duma aldeia de Trás-os-Montes, não tem história porque ela não conheceu a mãe nem o pai. A mãe morreu no parto duma próxima irmã. Ela ficou órfã, abandonada, depois foi acolhida por um padre que se apresentou como sendo tio delas. Então até o nome dela foi rescrito, foi inventado para ela não ter uma ligação com a sua mãe - uma "senhora do pecado". Penso que ela queria muito sair dali quando era nova, o meu pai passou... "distraído", ela agarrou-o e foram para o Porto. Depois foram de Portugal para Moçambique e nascemos nós, três irmãos, eu sou o do meio. Fernando Amado, dois anos mais velho, e o mais novo, que tem uma diferença de sete anos de mim, chama-se Armando Jorge. [...] O meu pai, com um grupo de alguns portugueses que tinham sido deportados de Portugal por motivos políticos, formaram associações do tipo cineclubes, centros culturais onde se faziam debates de certas coisas. O meu pai trabalhava em três jornais, o Notícias da Beira, o Diário de Moçambique e o Notícias, de Lourenço Marques.

[...] A Beira era uma cidade muito conflituosa porque a fronteira entre os brancos e os negros era uma fronteira muito misturada, muito "atravessada". E eu recordo-me - toda a minha infância é uma infância de viver no meio de negros, brincar, com eles, os meus amigos, as pessoas que eu posso referenciar da minha infância, com a excepção dos meus irmãos e mais alguns, todo o resto é uma infância toda vivida ali.

[...] Vivemos em quase todas as partes da Beira. O meu pai mudava constantemente de bairro. Mas era constante essa mistura. Porque a Beira é uma cidade conquistada ao pântano. Então, à medida que era possível secar uma região e construir casa de cimento isso fazia-se. Mas estavam lá as casas dos negros locais. Então, sempre do outro lado da rua havia africanos com casa de caniço. Não tanto esta arquitectura arrumada, de urbanização feita com plano, como aconteceu em Lourenço Marques. Vivi muito nessas zonas suburbanas, periféricas.

[...] Os brancos da Beira eram profundamente racistas. Quando eu saí da Beira para Lourenço Marques, em 1971, parecia-me que estava noutro país, porque na Beira havia quase apartheid em certas coisas. Não podiam entrar negros nos autocarros, só no banco de trás... Enfim, era muito agressivo. No Carnaval os filhos dos brancos vinham com paus e correntes bater nos negros... Recordo-me duma história: eu tinha um senhor que me dava explicações de matemática, privadas, e ele era pai dum coronel que tinha feito um massacre em que tinham sido mortos 125 ou 130 camponeses. E ele tinha fotografias do massacre dentro de casa, como uma glória! Eu só andei uma semana naquelas explicações. Nós chamávamos-lhe o "Bengalão", porque ele tinha uma bengala grande, e quando começava a sessão de estudo ele mandava sair as mulheres - as meninas - e ficava só com rapazes, e dizia: "Cuidado, porque o pretinho está-nos a ouvir, é preciso impedir isso. Na escola eu tenho que baixar as notas dos negros para eles nunca ficarem à vossa frente, vocês têm que me ajudar nesta luta..." - e aquilo era uma coisa que para mim soava horrível.

[...] Eu guardo na minha infância, assim, uma coisa muito esbatida, um ponto de referência, as histórias que me eram contadas, dos velhos que moravam perto, vizinhos do outro lado da rua, de um outro mundo, e eu recordo esse mundo encantado até algumas histórias, sobretudo como eles me deixaram uma marca. Os meus dois irmãos também escreviam, com 16, 17 anos, e o meu irmão Carlos mais cedo, até. O meu pai tinha muito esta coisa que eu era o filho que lhe ia continuar a veia. [...] em 83, publiquei o meu primeiro livro. Como uma espécie de contestação contra o domínio absoluto da poesia militante, panfletária. Para se ser revolucionário era preciso falar de marxismo, nos operários, e eu resolvi fazer um livro de poesia íntima, intimista, lírico. E o Orlando Mendes, que faleceu agora, fez-me um prefácio bonito, explicando que era uma coisa "nova", no sentido de que se pode fazer uma poesia de vanguarda sem se falar muito em política. O livro esgotou-se rapidamente, não é o mérito daquele livro, quase todos eles se esgotavam.

Influências? Do Craveirinha, sim, um pouco do Craveirinha. Mas eu apaixonei-me mais pela linha dos brasileiros, pelo João Cabral de Melo Neto, pelo Carlos Drummond de Andrade. Quando comecei a descobrir o mundo da poesia pensava que os brasileiros tinham valores maiores. Talvez fosse uma resistência minha. Achava que havia uma certa injustiça praticada no relevo que se dava aos poetas portugueses em relação aos brasileiros, quando estes tinham superado os próprios portugueses. Sim, mas também tive a influência de alguns poetas portugueses, como Sofia de Mello Breyner, o Eugénio de Andrade, o Fernando Pessoa."

MIA COUTO

*



Mia Couto & Sebastião Salgado

dobras visuais
http://www.dobrasvisuais.com.br/2013/05/o-que-e-fotografia-mia-couto-vi/


O que é fotografia? | Mia Couto VI


Sebastião Salgado: Genesis, Zambia, 2010.
“- Vou fazer uma reportagem da caçada, fui contratado pela mesma empresa que o contratou a si.
- Tenho certeza de que vai gostar. E os leões vão gostar de saber que a morte deles merece uma reportagem.
É a primeira vez que vou participar numa caçada. Devo dizer, sem ofensa, que sou contra.
- Contra o quê?
- Contra as caçadas. Ainda por cima tratando-se de leões.
- O problema, caro escritor, é que você nunca viu um leão.
- Como nunca viu?
- Viu leões em safaris fotográficos, mas você não sabe o que é um leão. O leão só se revela, em verdade, no território em que ele é rei e senhor. Venha comigo a pé pelo mato e saberá o que é um leão. (…)
Henrique Baleiro cumpria o resto do ritual: invariavelmente, metia a carta num envelope que humedecia nos lábios e que depois guardava na mala de viagem. Transportava aquelas cartas para as demoradas caçadas. Levava também uma fotografia desfocada de Martina.
- Está assim, sem foco, para os outros verem, mas não olharem demais. (…)

Sebastião Salgado: Genesis, Congo, 2004.

Sebastião Salgado: Genesis, Botswana, 2007.
Aqueles que matamos, por mais estranhos e inimigos que sejam, tornam-se nossos parentes para sempre. Nunca mais se retiram, permanecem mais presentes que os vivos. (…)
Sou um caçador. Eu não mato, eu caço. (…)
O escritor segue atrás de mim, de máquina fotográfica a tiracolo. (…) Os aldeões suspendem a cerimônia, em silêncio, observam-nos com animosidade. Está patente no olhar que nos lançam: somos intrusos, estamos contaminando o momento. De imediato, o escritor percebe que está fora de questão tirar fotografias. (…)
Então percebo: aqueles caçadores já não são gente. São leões. Aqueles homens são os próprios animais que pretendem caçar. Aquela praça apenas confirma: a caça é uma feitiçaria, a última das autorizadas feitiçarias. (…)
Extasiado, o escritor comenta:
- Espetáculo inesquecível! Uma exibição telúrica, que pena não ter podido fotografar! (…)
Sabia que o pisteiro e a leoa morreram abraçados, como se os dois se reconhecessem, íntimos parentes.
- Tivemos que separar os corpos, com muito custo. Aquilo parecia um parto às avessas. Dizem que o escritor até chorou. Nem conseguiu fotografar. (…)
Máquina fotográfica balançando no peito, o escritor segue atrás de mim. Os espinhos roçam-me as pernas e os braços. Um rastro de sangue é a minha herança. Sou um caçador que sangra mais do que a vítima. (…)
A leoa tinha sido morta junto à estrada. A esta hora já fora conduzida para a aldeia onde iria ser exibida como uma prova do êxito da caçada. Restava o macho, que se apresentava imponente. Por esta razão, o administrador pediu que se fotografasse não a leoa mas o leão: a imagem renderia mais nos noticiários da nação. (…)
- Fotografe-me a mim, junto com o troféu – insiste o administrador. (…)
Não é matar que me fascina. É esse encontro com o esquivo milagre, o fugaz e irrepetível momento.”
Mia Couto em A confissão da leoa [São Paulo: Companhia das Letras, 2012].
Para conhecer mais: Sebastião Salgado: Genesis.
No Dobras:
O que é fotografia? | Mia Couto: I – II – III – IV – V.

Sebastião Salgado: Genesis, Galápagos, 2007.
*

Saturday, 11 May 2013

MIA COUTO "Contos do nascer da terra"


O mundo necessita ser visto sob outra luz: 
a luz do luar
essa claridade que cai 
com respeito e delicadeza.
Só o luar revela o lado feminino dos seres .
Só a lua revela revela intimidade 
da nossa morada terrestre.

MIA COUTO
"Contos do nascer da terra"

 Luas, de Angela Felipe

*

Sunday, 5 May 2013

Saturday, 20 April 2013

mia couto: beijo


BEIJO

Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.
Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.
O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.
Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.

MIA COUTO
No livro "Tradutor de chuvas"

Rodin: o beijo

*

Monday, 18 March 2013

Mia Couto - identidade


Identidade
Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço 

Mia Couto
"Raiz de Orvalho e Outros Poemas"