Sunday, 8 September 2013

Tela em construção para o Prêmio Dom Pedro Casaldáliga, realizada por Clóvis Irigaray e Elias de Paula, na abertura oficial do SEMIEDU2013.




Fotografia da tela em construção retratando Dom Pedro Casaldáliga de Clovis Irigaray e Elias de Paula; que é parte do documentário Pedro Pelos Traços da Paz, com direção de Celso Prudente e fotografia de Duflair Barradas.


É uma grande homenagem, pela vivacidade do olhar do Pedro e das duas crianças indígenas, com marcas de um extremo carinho e delicadeza, com direito ao ANEL  DE TUCUM do Pedro, e o olhar que nos cobra ternura, compromisso com o sofrimento de todos os oprimidos, condensados nos mais oprimidos dos oprimidos, os indígenas. A escolha deles não é por uns contra os outros oprimidos, mas por um a favor de todos.
Passos

preparativos....

   


Semiedu é destacado como espaço de debate e trocas de saberes


Publicado em Notícias | 06/09/2013

“Quero elogiar não só os grupos que estão organizando este evento, mas também a Universidade e aos cidadãos de Mato Grosso, que se abrem e se animam a ouvir uma população que mesmo que não possua linguagem universitária, possui experiência, necessidade, um rito pela educação, o que é maravilhoso. Em lugar nenhum do Brasil você encontra isso.” Assim Jandir João Zanotelli, da Universidade Federal de Pelotas e membro permanente do Conselho de Reitores, que participa pela primeira vez por completo do Seminário de Educação (Semiedu), definiu o evento em coletiva de imprensa realizada hoje (06) no Centro Cultural da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Zanotelli, que já foi reitor da Universidade Federal de Pelotas, destacou ainda o papel das universidades como espaço de debates e de novas ideias. “A primeira universidade do mundo nasceu como um lugar onde toda a sociedade debatia seus problemas”. Segundo o professor, uma população que tem ânimo para criar uma universidade popular é uma população que tem garra, que quer lutar, quer ela própria unir e debater perspectivas de melhoria. Ao explicar que foi em Cuiabá que surgiu a primeira capital do ouro do Brasil, reiterou que quando a mesma se torna um lugar especial de debate da população merece o apoio de todos. “Não há melhor ouro que debater a educação, essa com certeza é a coisa mais preciosa de uma nação”.
Também na coletiva, o professor doutor Luiz Augusto Passos, coordenador do evento, reafirmou o Semiedu como uma troca de aprendizados e saberes entre pessoas de dentro e de fora da UFMT. “Essas discussões são responsabilidade da Universidade e da sociedade. São momentos de troca, de aprendizagem mútua”. Segundo o coordenador, participarão do evento pesquisadores e conferencistas de diversos países, buscando fortalecer os debates em termos mundiais.
O tema central do Semiedu2013, que está em sua vigésima primeira edição, é “Educação e (des)colonialidades das práticas, saberes e poderes”, voltado para a discussão da herança política, cultural e educacional colonizadora imposta aos países chamados periféricos pelos impérios colonialistas ao longo da histórica, com reflexos negativos na autodeterminação dos povos, das minorias e no seu desenvolvimento econômico, social e cultural. “A grande função do evento é que nos perguntemos o que estamos fazendo que ainda não nos livramos de nossos opressores. Precisamos entender como podemos nos tornar cidadãos, uma vez que não o somos totalmente caso não nos livremos deles.” Segundo Passos, o evento é uma conjugação daqueles que querem maior diálogo, mais justiça.
O evento, que já conta com mais de 2500 inscrições, acontecerá de 09 a 13 de setembro no campus de Cuiabá da UFMT , com conferências, palestras, mesas redondas, Grupos de Trabalho, além de diversos eventos paralelos, como o 2º Congresso Internacional de Educação Ambiental dos Países Lusófonos, o I Congresso de Pesquisadores/as Negros/as do Centro-Oeste (I Copene) e VII Jornada Desigualdades Raciais na Educação Brasileira e Rodas de Diálogo. Dentre os temas a serem debatidos ao longo da semana do evento estão práticas educacionais inovadoras e libertadoras, educação indígena, educação ambiental, desigualdades raciais e sociais na educação, dentre outros.
A programação cultural do evento inclui o lançamento de livros, exposições de artes plásticas e de cartuns com a temática ambiental e apresentações da Orquestra e Coral da UFMT e grupos musicais.
Veja a programação completa acessando o site do Semiedu2013.

Fonte: ufmt.br

Tuesday, 3 September 2013

Mini-cursos e oficinas

Mini-cursos e oficinas
DIAS 11 e 12 de setembro de 2013
17h - 19h | 



01
O CARÁTER ECONÔMICO DA EDUCAÇÃO ESCOLAR DAS MASSAS TRABALHADORAS
Local:  IE | sala:68
 ELISMAR BEZERRA ARRUDA
MÁRCIA CRISTINA MACHADO PASUCH
VITOR MARTINS FRAGA
02
O CONSELHO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO E A ELABORAÇÃO E ACOMPANHAMENTO DO PLANO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO
Local:  IE | sala: 58
ERNI INEZ LIMBERGER BATTIROLA
MARIANA FINIMUNDY
SOLANGE DOS SANTOS
03
A UTILIZAÇÃO DA COLEÇÃO CADERNOS DE EJA NO ENSINO DA MATEMÁTICA PARA JOVENS E ADULTOS
Local:  IE | sala: 05
JEFFERSON BENTO DE MOURA

04
POR QUÊS MATEMÁTICOS SOBRE FRAÇÕES: CONSTRUINDO RESPOSTAS
Local:  IE | sala: 06
GLADYS DENISE WIELEWSKI
JEFERSON GOMES MORIEL JUNIOR

05
SITUAÇÃO PROBLEMA ENVOLVENDO OPERAÇÕES DE FRAÇÕES
Local:  IE | sala: 07
GISSELDA MATTANA

06
(RE) CONHECENDO COMUNIDADES QUILOMBOLAS COM LEITURAS DE MAPAS MENTAIS (CARTOGRAFIA CULTURAL)
Local:  IE | sala: 08
ALINE NEVES RODRIGUES ALVES
NATHAN ZANZONI ITABORAHY

07
CONSTRUINDO CULTURAS, DESENVOLVENDO POLÍTICAS E ORQUESTRANDO PRÁTICAS MAIS INCLUSIVAS NO COTIDIANO DA ESCOLA: “INDEX PARA A INCLUSÃO”
Local:  IE | sala: 09
LILLIAN AUGUSTE BRUNS CARNEIRO
MARA LAGO

08
EDUCAÇÃO AMBIENTAL PÓS-COLONIAL EM ESPAÇOS DE CONVIVÊNCIA AUTOPOIÉTICOS
Local:  IE | sala: 59
ANDREIA TEIXEIRA RAMOS
GILFREDO CARRASCO MAULIN
SOLER GONZALEZ
09
TEATRO PEDAGÓGICO EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL
Local:  IE | sala: Auditório II ICHS
DJAIR SERGIO DE FREITAS JUNIOR


10
ASTRONOMIA PARA PROFESSORES DO ENSINO BÁSICO: CONCEITOS, MITOS E EXPERIMENTOS
Local:  IE | sala: 60
ANA PAULA AUTA AZEVEDO
JARYANNE RUFINO DA SILVA
ROBERTA LIMA MORETTI
SANDRA SANTOS DE SOUZA
11
FÍSICA DAS CORES E DA VISÃO: CONCEITOS E EXPERIMENTOS
Local:  Faculdade de Economia | Sala 02 (2º piso)
CICERO JEFFERSON TURBANO RAMALHO
DANIELE CRISTINA DA SILVA
ERICA FACINCANI
ROBERTA LIMA MORETTI
12
IDENTIFICAÇÃO DOS POLÍMEROS QUE CONSTITUEM AS EMBALAGENS ATRAVÉS DE TESTES FÍSICO-QUÍMICOS
Local:  Faculdade de Economia | Sala 03 (2º. piso)
IVANI SOUZA MELLO
IVANIA SOUZA ARAÚJO
MARCELO FRANCO LEÃO
MARIA AUGUSTA CELLOS
13
SAÚDE DO PROFESSOR: ESTRATÉGIAS PARA A PROMOÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA
Local:  Faculdade de Economia | Sala 04 (2º piso)
MILTON ALCOVER NETO

14
O CORPO COMO RECURSO MUSICAL
Local:  Faculdade de Educação Física| Sala 03
ANDERSON CARDOSO MENDES
KALEB PEREIRA RIOS
MAKSON ALEXANDRE
RITA DE CÁSSIA DOMINGUES DOS SANTOS
ROBSON EMANUEL PINHEIRO LEÃO
15
TEATRO COMUNITÁRIO
Local:  Faculdade de Educação Física| Sala 04
ANDRÉ ELIAS CRUZ ANTUNES
LAUREN CRISTINA COSTA DA CONCEIÇÃO
NAIANA RORIGUES DA SILVA
NAIARA RODRIGUES DA SILVA
16
MÉTODOS DE ALFABETIZAÇÃO E AS CONTRIBUIÇÕES DA LINGUÍSTICA PARA A ALFABETIZAÇÃO E O LETRAMENTO 
Local:  IE | sala: 11

BRUNO MARINI BRUNERI

17
PRÁTICAS DE TRADUÇÃO E DESCOLONIALIDADES
Local:  Faculdade de Economia | Sala 01 (térreo)
CAMILA RODRIGUES FRANCISCO
HENRIQUE DE OLIVEIRA LEE
JANAINE SILVESTRE DE PAULA
MARCELO GUEDES DOS SANTOS
MARCUS VINÍCIUS DE CAMPOS FRANÇA LOPES

18
O ENSINO DAS ARTES VISUAIS NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO
Local:  Faculdade de Economia | Sala 02 (térreo)
VIVIAN DA SILVA PAULITSCH

19
SEXUALIDADE E CURRÍCULO
Local:  Faculdade de Economia | Sala 03 (térreo)
TATINE PENARIOL DE ROSATO

20
RELAÇÕES RACIAIS NO CURRÍCULO ESCOLAR: ALGUNS APONTAMENTOS
Local:  IE | sala: 10
CANDIDA SOARES DA COSTA
NILVACI LEITE DE MAGALHÃES MOREIRA
ROSANA FÁTIMA DE ARRUDA
21
POR UMA PEDAGOGIA-POLÍTICA DAS RUAS: A CONSTRUÇÃO DE ANTAGONISMOS A PARTIR DE SIGNIFICANTES VAZIOS
Local:  Faculdade de Economia | Sala 05 (2º. piso)
HENRIQUE DE OLIVEIRA LEE
OZERINA VICTOR DE OLIVEIRA
22
CONTRIBUIÇÕES DA EDUCAÇÃO PARA A SAÚDE INDÍGENA: A PROBLEMÁTICA DO ALCOOLISMO NAS RELAÇÕES HISTÓRICAS INTERCULTURAIS
Local:  Faculdade de Economia | Sala 03 (1º. Piso)
ADRIANE APARECIDA DE FREITAS SILVA
BELENI SALÉTE GRANDO
FÉLIX RONDON ADUGOENAU
GERDA LANGMANTEL EICHHOLZ
RENATA MARIEN KNUPP MEDEIROS
23
DANÇA QUEER
Local:  Faculdade de Educação Física| Sala 05

MARILIA DE ALMEIDA SILVA
MEIRE ALBUQUERQUE DE SIQUEIRA
24
A EDUCAÇÃO, A ESCOLA E O PENSAMENTO DE GRAMSCI
Local:  ICHS | Sala 03
JOSÉ BONFIM MORAES JÚNIOR
ISABELLA LOPES CAMARGO
25
A AMÉRICA LATINA COMO NOSSO LOCAL DE ENUNCIAÇÃO: POR UMA ÉTICA DA LIBERTAÇÃO PEDAGÓGICA.
Local:  ICHS | Sala 04
TCHELLA FERNANDES MASO
26
ABORDAGENS GRAMISCIANAS ÀS PEDAGOGIAS DIALÉTICAS
Local:  ICHS | Sala 05
DIANA PAOLA GUTIERREZ DIAZ
DIEGO CHABALGOITY
NÉLITON AZEVEDO
ROCCO LACORTE
BÁRBARA WHITE


Sunday, 11 August 2013

‘Amistad’: O navio negreiro, porão do liberalismo

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22280&boletim_id=1576&componente_id=26968&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior_Especial__09082013


‘Amistad’: O navio negreiro, porão do liberalismo

A ironia, ou pior, o cinismo que movimenta a história humana batiza o navio negreiro com o fraterno nome de ‘Amistad’ (1997), filme dirigido por Steven Spielberg. Os escravos, a quem a ideologia reacionária chama de passivos e resignados, se rebelam no porão infecto. Sangue europeu começa a jorrar. Por Flávio Ricardo Vassoler

O navio negreiro singra através do Atlântico. Em seu porão, os cativos mal conseguem se esgueirar. A fome e as correntes os paralisam. Em meados do século XIX, a Inglaterra, polícia dos mares, havia decretado a proibição do tráfico de escravos. A mãe da Revolução Industrial queria o implemento do livre comércio e do trabalho assalariado para que suas manufaturas pudessem colonizar o mundo de um modo menos bárbaro – os feitores dão lugar aos industriais e financistas. Só faltou avisar aos ingleses que seu vastíssimo império colonial, ao longo de cujo horizonte o sol não se punha, tamanha a sua extensão de oeste a leste do planeta, não poderia participar dos primórdios do liberalismo em pé de igualdade com os gentlemen de Londres. Mas se, como quer Adam Smith, a mão invisível conduz as relações de mercado a um bom termo de equilíbrio, a vista grossa permite que o livre comércio seja forjado sobre o dorso cativo da África. 

A ironia, ou pior, o cinismo que movimenta a história humana batiza o navio negreiro com o fraterno nome de ‘Amistad’ (1997), filme dirigido por Steven Spielberg. Os escravos, a quem a ideologia reacionária chama de passivos e resignados, se rebelam no porão infecto. Sangue europeu começa a jorrar. Logo os espanhóis que comandam o barco viram reféns. Os cativos libertos por seu próprio destemor querem voltar para casa. Mas eles não conhecem as técnicas náuticas e precisam confiar nos antigos algozes para que o navio retorne. Ora, os espanhóis dolosos conduzem o Amistad rumo aos Estados Unidos escravocratas. A rebelião negra logo será julgada por magistrados brancos. 

As queixas e contradições se sobrepõem. A rainha da Espanha sentencia que os escravos lhe pertencem. Os comandantes espanhóis dizem que os cativos haviam nascido em Cuba, colônia espanhola, e que, por isso, “nós não estamos exercendo a prática ilegal do tráfico negreiro. Assim, os escravos nos pertencem”. Os marinheiros norte-americanos, por sua vez, declaram que foram eles que identificaram o barco – “navio negreiro, sem dúvida” – e que, por isso, “somos os novos proprietários da mercadoria humana”. Os mais interessados na questão não podem se pronunciar. Os escravos assistem ainda uma vez acorrentados à deliberação alheia de seu próprio destino. 

O contexto histórico em que a disputa judicial se dá não poderia ser mais explosivo. O judiciário se vê premido pelas demandas do executivo, uma vez que o presidente procura manobrar a questão para evitar um recrudescimento das rivalidades entre o norte industrial e o sul escravista. O espectro da guerra civil ameaça cindir os Estados Unidos. 

− Mas esses negros devem ser punidos, eles chacinaram os brancos que os conduziam para Cuba, onde está a justiça neste país?! – berra o promotor que bem poderia iniciar um abaixo-assinado (extra)oficial para a formação da futura Klu Klux Klan. 

Além do ódio pelos sequestradores que lhes transformaram de homens livres em escravos, que mais teria insuflado o ímpeto de vingança dos cativos contra seus algozes? 

A armada inglesa, polícia dos mares, prendia os traficantes de escravos Atlântico afora. Quando os espanhóis se deram conta de que as tropas da rainha Vitória se acercavam do navio, um velho expediente foi utilizado para que o fardo humano transportado pelo Amistad não ultrapassasse os limites legais para o enquadramento da carga como um contingente de escravos. Entre os 100 africanos, 50 são escolhidos – seleção eugênica que aguilhoa sobretudo mulheres e crianças, os menos aptos para o trabalho na lavoura. (Os nazistas, parentes não tão distantes dos escravocratas, herdariam dos ancestrais o ímpeto pela seleção natural historicamente configurada.) Os 50 mais fortes devem se postar como plateia para aprender in loco a pedagogia do pelourinho. Os escolhidos são acorrentados uns aos outros. Uma rede repleta de pedras pesadíssimas puxará o comboio humano oceano abaixo. Quando o algoz espanhol abre um compartimento do convés e arremessa a rede repleta de pedra contra o mar, um a um os escravos são afogados. (Enquanto os fazendeiros sulistas dormem o sono dos justos e contam carneirinhos tão brancos quanto o algodão colhido por seus escravos, os africanos sobreviventes contam, uma a uma, as 50 ovelhas negras afogadas como bodes expiatórios.) Reiteremos, agora, a acusação (aos berros) do promotor de justiça: 

− Esses negros devem ser punidos, eles chacinaram os brancos que os conduziam para Cuba, onde está a justiça neste país?! 

Quando a senzala incinera a casa grande e transforma o Mississippi em chamas, apenas ocorre a devolução da nota promissória que sequer foi entregue àqueles condenados a trabalhar gratuita e compulsoriamente. 

Mas eis que o liberalismo dos fundadores dos Estados Unidos da América agora se expressa na figura do ilustre John Quincy Adams, sexto presidente dos Estados Unidos e filho do também presidente John Adams. Adams Jr. vem à tona como advogado de defesa dos cativos da Amistad espanhola. Em suas mãos, há um artigo de um político sulista que procura legitimar a escravidão. O ex-presidente dos EUA, como Sócrates, narra a cadeia de argumentos contrários antes de refutá-la cabalmente: 

− Diz o sulista em questão que a escravidão não é contrária à natureza humana, pois para onde quer que olhemos, seja para a história mundana, seja para os textos bíblicos, encontraremos exemplos que atestam que sempre houve subordinação entre os homens – líderes e liderados, senhores e escravos. Hierarquia. Assim, a escravidão não é pecaminosa ou má, mas a corroboração da tradição histórica, sua mais coerente expressão. 

John Quincy Adams, rematado orador, cala as palavras por um sutil lapso de tempo para que os jurados e os espectadores se preparem para – e anseiem por – sua contraposição:

− No entanto, o político sulista agora não mais em questão, mas em xeque, não consegue explicar por que os homens só fazem se rebelar quando se veem privados de sua propriedade mais natural, qual seja, a liberdade. Do contrário, não haveria choro, ranger de dentes, fúria e revolta diante dos feitores. Os homens aceitariam o quinhão do cativeiro de bom grado. Mas a experiência – o mesmo transcurso histórico advogado pelo sulista escravocrata – me autoriza a dizer que o homem vem da liberdade e para ela sempre propende. Tudo o mais é fruto da tirania e do arbítrio que pretende transformar a lógica de uns poucos no cárcere de quase todos. 

Hollywood e suas pesquisas de mercado – essenciais para transformar filmes em demandas artísticas que ratifiquem em termos de bilheteria os investimentos milionários – gostam da grandiloquência que leva o público às lágrimas. A realidade ficcional realiza a justiça para que a realidade histórica permaneça e se reproduza tal como está. Que dizer sobre o liberalismo de John Quincy Adams quando sabemos que o ex-presidente foi um dos principais idealizadores da Doutrina Monroe? Assim falou o presidente James Monroe: “Julgarmos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e os interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência européia”. O México, a América Central e a América do Sul bem sabem que a polícia do continente deixou de ser europeia para se tornar estanunidense. A América para os americanos – do norte. Mas, a despeito do entretenimento administrado de Hollywood, o liberalismo abolicionista foi o primeiro aríete para a luta pelos direitos civis nos EUA sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. O judeu Steven Spielberg bem sabe que a lógica do navio negreiro escreveu o prefácio histórico para as câmaras de gás de Auschwitz, Dachau e Treblinka. Nesse sentido, ‘Amistad’ não nos traz apenas a cínica contiguidade entre a amizade e a escravidão, mas insufla ar redivivo para pensarmos, narrativamente, sobre feridas históricas que nossos tempos ainda não conseguiram cicatrizar. 


*Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. 

Thursday, 8 August 2013

A luta silenciosa dos awá – e como apoiá-la

outras palavras
http://outraspalavras.net/blog/2013/08/05/a-luta-silenciosa-dos-awa-e-como-apoia-la/

A luta silenciosa dos awá – e como apoiá-la

130805-Salgado5Governo anuncia, enfim, operação para proteger território de índios nômades, quase desconhecidos e ameaçados por madeireiros. Para que iniciativa saia do papel, sociedade precisa pressionar
Por Taís González | Imagens: Sebastião Salgado
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, prometeu neste domingo (4/8): ainda neste semestre, segundo ele, o Estado brasileiro desencadeará operação conjunta para proteger os Awás-Guajás e seu território, no que resta do Floresta Amazônica no Maranhão. Ramo da etnia tupi, foram perseguidos intensamente, a partir do século 18. São quase desconhecidos pelos demais brasileiros. Estão reduzidos a cerca de 400 indivíduos – alguns dos quais isolados, sem contato algum com ocidentais. Ocupam um território de 116 mil hectares, um pouco menor que o município de São Paulo. São cada vez mais pressionados por madeireiros que destroem a selva, atacam os índios, transmitem doenças e já resistiram, a bala, a tentativas anteriores de desocupação pelo Estado.
130805-Salgado
Povo quase dizimado, os Awá-Guajá não dominam o português, a agricultura e mal conhecem o valor do dinheiro. Vivem exclusivamente da floresta – como caçadores e coletores de frutas e mel. O fotógrafo Sebastião Salgado acaba de publicar uma série de fotos que fez com eles, com quem viveu por três semanas. Praticamente abandonados pelo Estado, foram considerados a “tribo mais ameaçada do mundo”, pela organização International Survival, que luta pela proteção de grupos indígenas isolados..
130805-Salgado3Atualmente, os Awás, juntamente com as etnias Ka’apor e Tembé, ocupam três áreas no Maranhão: a Terra Indígena Alto Turiaçu, a Terra Indígena Awá e a Terra Indígena Carú, formando um mosaico. Seu território, a Reserva Biológica do Gurupi, foi demarcada ainda em 1961, no governo Jânio Quadros – mas nunca protegido. A pressão dos madeireiros ilegais cresce, a ponto de terem emboscado Polícia Federal e Força Nacional, ano passado. Além disso, os índios são afetados pela Estrada de Ferro Carajás (EFC), e pelo Programa Grande Carajás. Implantado nos anos 80, ele dividiu a Reserva do Gurupi e atraiu os invasores.
130805-Salgado7
Os awás sentem os impactos do desenvolvimento. O silêncio na mata é fundamental para caçar, mas, por conta das motosserras e da ferrovia, os animais fogem e o que se escuta é o som da destruição. As aldeias mais próximas da via-férrea estão na Terra Indígena Caru e são as aldeias Awá e Tiracambú, distantes cerca de 1,1 km e 1,7 km, respectivamente.
130805-Salgado8
O futuro - Os Awá são considerados pela Funai um grupo de “contato recente”, o que sugere ser um coletivo que viva dentro de uma TI (Terra Indígena), cuja língua e modos de vida estão bastante ativos. Por isso, necessitam de auxílio e atenção especiais. A falta de uma política específica para este povo, leva a crer que grupos isolados, tão logo contatados, sejam também entregues à própria sorte, tal como estão as comunidades de contato recente.130805-Salgado9Estimativas apontam que, pelo menos, de 30% a 40% da reserva dos Awá esteja destruída pelo desmatamento. Entretanto, é impossível calcular a real dimensão do desmatamento, já que diversas espécies de árvores nobres são derrubadas no sistema “seletivo”, quando a floresta parece intocada, porém, as árvores previamente selecionadas são retiradas. Além dos madereiros e empresários, os Awá convivem hoje com outras ameaças, como os posseiros e os fazendeiros.
Recentemente o Exército desembarcou na região com 700 homens, numa operação com o Ibama, para reprimir o ataque à floresta e a produção de maconha em terras indígenas, reascendendo a esperança. O que encontraram foram abundantes provas do crime de desmatamento.130805-Salgado2Segundo o ministo da Justiça, a “desintrusão” – retirada dos não-índios do território – já está desenhada. Denomina-se “Operação Awá” e será executada em breve. Participarão Polícia Federal, Força Nacional, Funai e Incra. Camponeses que vivem na área há décadas, sem envolvimento com a mineração, serão encaminhados a assentamentos de reforma agrária.
Será suficiente? As décadas de descaso estatal, numa área de tamanho relativamente reduzido, permitem duvidar. Mas haverá diversas formas de acompanhar o assunto e pressionar o Estado brasileiro, nos próximos meses. Uma forma, ainda que singela, de agir desde já, é assinar, no site da Survival International, uma carta endereçada ao ministro da Justiça. Outras Palavras acompanhará o tema.
130805-Salgado6
Violência contra índios - O número de casos de “violência contra a pessoa” (ameaças de morte, homicídios, tentativas de assassinato, racismo, lesões corporal e violência sexual), que têm como alvo indígenas aumentou 237% em 2012, em relação ao ano anterior. Os dados foram publicados no “Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil”, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Diariamente índios são vítimas de discriminação, preconceito e marginalização. Sofrem todo tipo de violência, não bastasse o genocídio ocorrido há séculos. Por meio de constantes tentaivas de mudanças na Constituição Federal, como é o caso das PECs 215, 038, 237, do PL 1610 (mineração) e das portarias 303 e 308, seus direito são também violados por quem tem o dever de protegê-los, o Estado brasileiro.