Wednesday, 31 July 2013

Eduardo Galeano aponta quatro mentiras sobre o ambiente

hornos a chiapas
http://hornosachiapas.wordpress.com/2011/05/18/eduardo-galeano-aponta-quatro-mentiras-sobre-o-ambiente/

Eduardo Galeano aponta quatro mentiras sobre o ambiente

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A civilização que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem
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Quatro frases que aumentam o nariz do Pinóquio

1 – Somos todos culpados pela ruína do planeta.
A saúde do mundo está feito um caco. “Somos todos responsáveis”, clamam as vozes do alarme universal, e a generalização absolve: se somos todos responsáveis, ninguém é. Como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio ambiente. É a maior taxa de natalidade do mundo: os experts geram experts e mais experts que se ocupam de envolver o tema com o papel celofane da ambiguidade. Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao “sacrifício de todos” nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras – inundação que ameaça se converter em uma catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada de ozônio – não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial asfixia a realidade para outorgar impunidade à sociedade de consumo, que é imposta como modelo em nome do desenvolvimento, e às grandes empresas que tiram proveito dele. Mas, as estatísticas confessam.. Os dados ocultos sob o palavreado revelam que 20% da humanidade comete 80% das agressões contra a natureza, crime que os assassinos chamam de suicídio, e é a humanidade inteira que paga as consequências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não-renováveis. A senhora Harlem Bruntland, que encabeça o governo da Noruega, comprovou recentemente que, se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, “faltariam 10 planetas como o nosso para satisfazerem todas as suas necessidades. ” Uma experiência impossível.
Mas, os governantes dos países do Sul que prometem o ingresso no Primeiro Mundo, mágico passaporte que nos fará, a todos, ricos e felizes, não deveriam ser só processados por calote. Não estão só pegando em nosso pé, não: esses governantes estão, além disso, cometendo o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se oferece como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que está fazendo adoecer nosso corpo, está envenenando nossa alma e está deixando-nos sem mundo.
2 – É verde aquilo que se pinta de verde.
Agora, os gigantes da indústria química fazem sua publicidade na cor verde, e o Banco Mundial lava sua imagem, repetindo a palavra ecologia em cada página de seus informes e tingindo de verde seus empréstimos. “Nas condições de nossos empréstimos há normas ambientais estritas”, esclarece o presidente da suprema instituição bancária do mundo. Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação.
Quando se aprovou, no Parlamento do Uruguai, uma tímida lei de defesa do meio-ambiente, as empresas que lançam veneno no ar e poluem as águas sacaram, subitamente, da recém-comprada máscara verde e gritaram sua verdade em termos que poderiam ser resumidos assim: “os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotarem o desenvolvimento econômico e a espantarem o investimento estrangeiro.” O Banco Mundial, ao contrário, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez, por reunir tantas virtudes, o Banco manipulará, junto à ONU, o recém-criado Fundo para o Meio-Ambiente Mundial. Este imposto à má consciência vai dispor de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza. Intenção inatacável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está admitindo, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um fraco favor ao meio-ambiente.
O Banco se chama Mundial, da mesma forma que o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga, manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato em que come. Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos escravizados países que, a título de serviço da dívida, pagam a seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe sua política econômica, em função do dinheiro que concede ou promete. A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques.
3 – Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.
Poder-se-á dizer qualquer coisa de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bondoso Al sempre enviava flores aos velórios de suas vítimas… As empresas gigantes da indústria química, petroleira e automobilística pagaram boa parte dos gastos da Eco 92: a conferência internacional que se ocupou, no Rio de Janeiro, da agonia do planeta. E essa conferência, chamada de Reunião de Cúpula da Terra, não condenou as transnacionais que produzem contaminação e vivem dela, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno.
No grande baile de máscaras do fim do milênio, até a indústria química se veste de verde. A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo que, para ajudarem a natureza, estão inventando novos cultivos biotecnológicos. Mas, esses desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, mas sim buscam novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas do mundo produtoras de sementes, seis fabricam pesticidas (Sandoz-Ciba-Geigy, Dekalb, Pfizer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.
A recuperação do planeta ou daquilo que nos sobre dele implica na denúncia da impunidade do dinheiro e da liberdade humana. A ecologia neutra, que mais se parece com a jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça de um mundo, onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos, mas sim privilégios dos poucos que podem pagar por eles. Chico Mendes, trabalhador da borracha, tombou assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por acreditar no que acreditava: que a militância ecológica não pode divorciar-se da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não será salva enquanto não se fizer uma reforma agrária no Brasil. Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados, a cada ano, na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão às cidades deixando as plantações do interior. Adaptando as cifras de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentarem pela incessante invasão de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem alterar dentro dos limites da ecologia, surda ante o clamor social e cega ante o compromisso político.
4 – A natureza está fora de nós.
Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: “Honrarás a natureza, da qual tu és parte.” Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão. Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala de submeter a natureza. Agora, até os seus verdugos dizem que é necessário protegê-la. Mas, num ou noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós. A civilização, que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper seu próprio céu.
Eduardo Galeano, jornalista e escritor, de Montevidéu – maio de 2011.
Retirado daqui e daqui.

Sunday, 28 July 2013

MIA COUTO No livro "Antes de Nascer o Mundo"

Não chegamos mesmo a viver durante a maior parte da vida. Desperdiçamo-nos num espraiada letargia a que, para nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. No resto, vamos vagalumeando, acesos por breves intermitências.

Uma vida inteira pode ser virada do avesso num só dia dessas intermitências.

MIA COUTO
No livro "Antes de Nascer o Mundo"


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Monday, 22 July 2013

Morre o jornalista e escritor comunista francês Henri Alleg

vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=218932&id_secao=9http://www.humanite.fr/medias/henri-alleg-le-reve-algerien-cheville-au-corps-503443


18 DE JULHO DE 2013 - 11H50 

Morre o jornalista e escritor comunista francês Henri Alleg 


Morreu nesta quarta-feira (17), em Paris, aos 91 anos (completaria 92 no próximo dia 20), o jornalista, escritor, militante comunista, autor de várias obras, entre elas o célebre “A Questão” (1958) que denunciava a tortura durante a guerra da Argélia.

Por Rosa Moussaoui, em “Humanité”


 
Morre o jornalista e escritor comunista francês Henri Alleg.
Desde o tempo do jornal “Alger républicain”, do qual se tornou diretor em 1951, o jornalista comunista fez da pluma sua arma de combate por uma Argélia liberta do racismo e da opressão colonialista. Seu livro “A Questão” contribuiu de maneira decisiva para revelar a prática da tortura pelo exército francês.

“Enfim Argel. Um cais inundado de sol, que mostra o boulevard em frente ao mar”. Quando o jovem Harry Salem desembarca pela primeira vez em Argel, em outubro de 1939, foi este esplendor mítico da Cidade branca a primeira coisa que ele abraçou. Quando o fascismo lançava seus tentáculos sobre a velha Europa e preparava as armas do desastre, o jovem, que sonhava com novos horizontes, teria podido viajar para Nova York ou para a América Latina. O acaso e algumas peripécias o levaram ao Norte da África, ao país que era então um “departemento francês”.

Sociedade de apartheid


Para o jovem parisiense, filho de alfaiate, nascido em Londres em uma família de judeus russos e poloneses em fuga dos pogroms, a descoberta da Argélia foi algo perturbador. Naquele outro mundo, seu sonho argelino toma corpo imediatamente. Ele se liga com os argelinos, meninos maltrapilhos e com amigos do albergue da juventude onde se alojava, entre os quais Mustafá Kateb. Amizades consideradas contrárias à natureza, nessa sociedade de apartheid. Instintivamente, o jovem recusa a fronteira invisível que separa os dois mundos, o dos europeus, cidadãos franceses, e o dos nativos, tornados estrangeiros em seu próprio país. Quando os vichystas se apossam de Argel, Henri, já comunista de coração, adere à Juventude Comunista clandestina, antes de se incorporar ao Partido Comunista Argelino (PCA). Foi lá, na euforia da Libertação, que seu caminho se cruza com o de uma “simpatizante”, Gilberte Serfaty. Ela se tornará uma ardente militante e, para ele, a companheira de toda a vida.

Racismo e opressão colonial


Na Argélia, naquele momento, chegou-se a uma situação sem retorno, com os massacres de maio de 1945 em Sétif e Guelma, prólogo de uma guerra que explodiria nove anos mais tarde. Para Henri Alleg, a pluma se torna a arma de combate por uma Argélia liberta do racismo e da opressão colonialista. Em novembro de  1950, ele ingressa no jornal “Alger républicain”. O diário tinha sido fundado em 1938 por homens progressistas que se opunham ao colonialismo. Sem pôr em causa o dogma da Argélia francesa, o jornal testemunhava, antes da guerra, sob a pluma de Albert Camus e outros “liberais”, o sinistro destino reservado aos nativos. Quando Henri Alleg assume a direção do jornal, em 1951, os comunistas já tinham conquistado ali uma influência preponderante. A linha do jornal se torna mais resolutamente anticolonialista, solidária com as lutas operárias, favorável ao objetivo da independência. Era o único jornal que escapava ao monopólio da imprensa diária de propriedade dos grandes colonialistas.

Ao lado de Alleg, coisa inédita e impensável na época, um “nativo”, Boualem Khalfa, foi promovido ao posto de redator chefe. O engajamento do jornal irrita enormemente as autoridades, que o censuram e multiplicam as apreensões, sob os pretextos mais banais. Henri Alleg e sua equipe tiram desse encarniçamento repressivo um slogan : “O ‘Alger républicain’ diz a verdade, nada mais que a verdade, mas Alger républicain não pode dizer toda a verdade”. Alleg encoraja as plumas afiadas, como a do jovem Kateb Yacine, cujas análises políticas, de uma fineza e uma impertinência tola, subjugavam até os mais aguerridos da redação. Quando eclode a insurreição, em 1º de novembro de 1954, “Alger républicain” já estava desde há muito tempo na mira dos guardiões do templo colonial. O jornal foi proibido em 1955.

Clandestinidade e censura

Henri Alleg passa à clandestinidade. Regularmente, envia artigos ao jornal “Humanité”, proibido na Argélia, alvo, por seu turno, também de censura na França. Ele foi preso em 12 de junho de 1957, quando se dirigia à casa de seu amigo, o matemático Maurice Audin, preso na véspera pelos paraquedistas. Torturado até à morte, Audin não conseguiu sobreviver aos suplícios que lhe infligiram os bárbaros, sob as ordens de Massu e Bigeard.

Alleg escapou do inferno. Todos os suplícios, todos os nomes, todos os lugares, mesmo as palavras, ficaram para sempre gravados na sua memória. Ele decide tudo contar, se sobrevivesse, sobre o que se passava naquele prédio ocupado pelo órgão repressivo, em El Biar, onde “se suicidou” o advogado Ali Boumendjel. Seu testemunho transpunha os muros do campo de Lodi, depois da prisão de Barberousse, em minúsculos papéis dobrados. Seu advogado, Léo Matarasso, os entrega ao jornal “Humanité”. A edição de 30 de julho de 1957, que publica esse relato arrepiante, é apreendida.

Na primavera de 1958, Jérôme Lindon aceita publicar as denúncias nas edições de “Minuit”. O livro, prefaciado por Jean-Paul Sartre, é imediatamente proibido. Mas a censura provoca um efeito inverso ao esperado pelas autoridades. Duas semanas mais tarde, em Genebra, o editor Nils Andersson assume a responsabilidade pela difusão. “A Questão” atravessa a fronteira em malas e circula às escondidas na França. No total, 150 mil exemplares clandestinos do livro serão difundidos, contribuindo de maneira decisiva para revelar a prática da tortura. Três anos após sua prisão, Henri Alleg é condenado por “atentar contra a segurança externa do Estado”. Ele é penalizado com dez anos de prisão. Transferido à prisão de Rennes, consegue fugir, com a cumplicidade de Gilberte, durante uma internação hospitalar. Ajudado por militantes comunistas, ele segue para a Tchecoslováquia, onde permanece até a assinatura dos acordos de Évian.

Sonho argelino 

Quando retorna à Argélia para supervisionar o relançamento de “Alger républicain”, as ameaças dos “irmãos” da Frente de Libertação Nacional (FLN), que se matavam pelo poder, ainda são veladas. Com Abdelhamid Benzine, Henri Alleg escapa por pouco de uns homens armados. A equipe se reconstitui. O apoio técnico da “Marseillaise” torna possível o reaparecimento do jornal, que assume como seu o slogan das mulheres da casbah, extenuadas pela guerra entre as facções da FLN : “Sebâa snin barakat !” (“Sete anos de guerra, já são suficientes!”). Mas estava claro o fosso entre a nova Argélia da FLN e o sonho argelino de Alleg e de seus camaradas. Ele evoluirá para um incomensurável abismo. Após o golpe de Estado de 1965, Alleg tem que fugir. Os comunistas são perseguidos. Em “Arbitraire”, um livro que testemunhava as torturas que lhe infligiam os homens da nascente ditadura, o dirigente comunista Bachir Hadj Ali conta que seus torturadores ameaçavam fazer de Alleg, refugiado em Paris, um Ben Barka argelino.

O combate de sua vida


Mas a Argélia ficou no coração do jornalista como o combate de sua vida. “Sou feliz e orgulhoso por ter participado do combate pela independência”, dizia-nos em março de 2012. Quando retornou à França, este homem discreto, erudito, de uma gentileza refinada, se incorporou à redação de “Humanité” como grande repórter e depois se tornou seu secretário-geral. “Exerci a profissão como militante comunista, animado por convicções”, gostava ele de repetir. “Foi para mim um engajamento no sentido mais forte do termo”, assinalava.

“Honra de nossa nação”


O secretário nacional do Partido Comunista Francês (PCF), Pierre Laurent, emitiu uma nota por ocasião do falecimento de Henri Alleg. “Para os comunistas e todo o povo francês e o argelino, isto causa imensa dor”.

“O nome de Henri Alleg permanecerá como sinônimo de verdade, coragem e justiça. Engajado pela paz, a independência e a democracia na Argélia, Henri foi torturado e preso, transferido a Rennes de onde se evadiu em 1961”, prossegue a nota do dirigente do PCF.

O dirigente comunista agrega que ao revelar as atrocidades cometidas pelo exército francês na Argélia, o autor de “A Questão” “permitiu que a sociedade francesa olhasse de frente a verdade do poder colonial que ela exercia na Argélia. A obra, traduzida em 28 línguas (inclusive em Português – nota da redação doVermelho), foi, com justiça, considerada como o “J'accuse” de nosso tempo. Sua concepção da profissão de jornalista – alimentada por seu ideal – honra a nossa nação”.

Tradução da redação do Vermelho

Sunday, 14 July 2013

Boaventura: “Desculpe, Presidente Evo”

outras palavras
http://outraspalavras.net/mundo/america-latina/desculpe-presidente-evo-morales/

Boaventura: “Desculpe, Presidente Evo”

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Para a Europa, um Presidente índio é sempre mais índio do que Presidente e, por isso, irremediavelmente suspeito
Por Boaventura de Sousa Santos
Esperei uma semana que o Governo do meu país lhe pedisse formalmente desculpas pelo ato de pirataria aérea e de terrorismo de Estado que cometeu, juntamente com a Espanha, a França e a Itália, ao não autorizar a escala técnica do seu avião no regresso à Bolí­via depois de uma reunião em Moscou, ofendendo a dignidade e a soberania do seu país e pondo em risco a sua própria vida. Não esperava que o fizesse, pois conheço e sofro o colapso diário da legalidade nacional e internacional em curso no meu país e nos pa­íses vizinhos, a mediocridade moral e política das elites que nos governam, e o refúgio precário da dignidade e da esperança nas consciências, nas ruas e nas praças, depois de há muito terem sido expulsas das instituições. Não pediu desculpa. Peço eu, cidadão comum, envergonhado por pertencer a um país e a um continente que são capazes de cometer esta afronta e de o fazer de modo impune, já que nenhuma instância internacional se atreve a enfrentar os autores e os mandantes deste crime internacional.
O meu pedido de desculpas não tem qualquer valor diplomático mas tem um valor talvez ainda superior, na medida em que, longe de ser um ato individual, é a expressão de um sentimento coletivo, muito mais vasto do que pode imaginar, por parte de cidadãos indignados que todos os dias juntam mais razões para não se sentirem representados pelos seus representantes. O crime cometido contra si foi mais uma dessas razões. Alegramo-nos com seu regresso em segurança a casa e vibramos com a calorosa acolhida que lhe deu o seu povo ao aterrar em El Alto. Creia, senhor Presidente, que, a muitos quilômetros de distância, muitos de nós estávamos lá, embebidos no ar mágico dos Andes.
O senhor Presidente sabe melhor do que qualquer de nós que se tratou de mais um ato de arrogância colonial no seguimento de uma longa e dolorosa história de opressão, violência e supremacia racial. Para a Europa, um Presidente índio é sempre mais índio do que Presidente e, por isso, é de esperar que transporte droga ou terroristas no seu avião presidencial. Uma suspeita de um branco contra um í­ndio é mil vezes mais credí­vel que a suspeita de um í­ndio contra um branco. Lembra-se bem que os europeus, na pessoa do Papa Paulo III, só reconheceram que a gente do seu povo tinha alma humana em 1537 (bula Sublimis Deus), e conseguiram ser tão ignominiosos nos termos em que recusaram esse reconhecimento durante décadas como nos termos em que finalmente o aceitaram. Foram precisos 469 anos para que, na sua pessoa, fosse eleito presidente um indí­gena num paí­s de maioria indígena.
Mas sei que também está atento às diferenças nas continuidades. A humilhação de que foi ví­tima foi um ato de arrogância colonial ou de subserviência colonial? Lembremos um outro “incidente” recente entre governantes europeus e latino-americanos. Em 10 de novembro de 2007, durante a XVII Cúpula Iberoamericana, realizada no Chile, o Rei de Espanha, desagradado pelo que ouvia do saudoso Presidente Hugo Chávez, dirigiu-se-lhe intempestivamente e mandou-o calar. A frase “Por qué no te callas” ficará na história das relações internacionais como um sí­mbolo cruelmente revelador das contas por saldar entre as potências ex-colonizadoras e as suas ex-colônias. De facto, não se imagina um chefe de Estado europeu a dirigir-se nesses termos publicamente a um seu congênere europeu, quaisquer que fossem as razões.
O senhor Presidente foi ví­tima de uma agressão ainda mais humilhante, mas não lhe escapará o facto de que, no seu caso, a Europa não agiu espontaneamente. Fê-lo a mando dos EUA e, ao fazê-lo, submeteu-se à ilegalidade internacional imposta pelo imperialismo norte-americano, tal como, anos antes, o fizera ao autorizar o sobrevoo do seu espaço aéreo para voos clandestinos da CIA, transportando suspeitos a caminho de Guantánamo, em clara violação do direito internacional. Sinais dos tempos, senhor Presidente: a arrogância colonial europeia já não pode ser exercida sem subserviência colonial. Este continente está a ficar demasiado pequeno para poder ser grande sem ser aos ombros de outrem. Nada disto absolve as elites europeias. Apenas aprofunda a distância entre elas e tantos europeus, como eu, que veem na Bolí­via um país amigo e respeitam a dignidade do seu povo e a legitimidade das suas autoridades democráticas.

A ARTE DE SEBASTIÃO SALGADO

A ARTE DE SEBASTIÃO SALGADO
nos contextos da colonialidade

Salgado: Botswana, homens da floresta

Salgado: Brasil, MG, carvoeiro

Salgado: Colômbia, plantação de café

Salgado: Cuba, cortador de cana

Salgado: Equador, Chimborazo

Salgado: Etiópia, campo de refugiados

Salgado: Índia, posto de vacinação

Salgado: Indonesia, Mentawai

Salgado: Mali, mulher sofrendo no hospital

Salgado: México, fronteira com EUA - migrante

Salgado: Namibia, criança himba

Salgado: Papua Nova Guiné, guerreiro

Salgado: Paquistão, vacinação contra a polio

Salgado: Ruanda, plantação do chá

Salgado: Somália, posto de saúde

Salgado: Sudaneses no campo de refugiados do Quênia (escola)

Salgado: Tanzania, campo de refugiados

Salgado: Zaire, orfanato
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39a Assembleia Regional do Cimi MT - documento final


DOCUMENTO FINAL

39a Assembleia Regional do Cimi MT
"Alertamos para o fato de que a negação de direitos e o esbulho das terras dos povos indígenas, mantendo uma prática genocida iniciada há mais de 500 anos, não nos permitirá construir uma sociedade justa e democrática. Neste “Brasil, país de todos”, os povos originários estão sendo condenados à morte e ao desaparecimento, vitimados pelo descumprimento dos preceitos constitucionais.

Reafirmamos nossa incondicional solidariedade aos povos indígenas e declaramos que nenhuma ameaça ou tentativa de intimidar os aliados destes povos deterá a nossa decisão de apoiá-los".

[baixar documento]
http://sdrv.ms/13b3rWJ

Mapa das terras indígenas e plantações de soja em 2010.
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mia couto - sonho

O que faz andar a estrada? 
É o sonho.
Enquanto a gente sonhar,
a estrada permanecerá viva.

(Mia Couto)

foto: Jonas Bendiksen
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