Sunday, 12 May 2013

Autobiografia de Mia Couto

Autobiografia de Mia Couto



"Nasci na Beira em 1955, sou filho de uma família de emigrantes portugueses que chegaram a Moçambique no princípio dessa década de 50. O meu pai era jornalista e era poeta. Ele publicou cinco ou seis títulos em Moçambique, uma poesia pouco íntima, mas também dois dos livros foram livros que tentaram ser livros de preocupação social, em relação ao conflito da situação existente em Moçambique. Mas eram livros em que a consciência política era mais antifascista, liberal, democrática, mas não questionando ainda a questão colonial. A família do meu pai é gente que enriqueceu um pouco no período da guerra, com garagens, e tinham portanto negócios ligados a automóveis. Eram do Porto.

O meu pai foi para África porque acho que ele queria seguir a carreira jornalística e não havia muita hipótese de emprego nessa altura em Portugal, penso que foi por isso. Mas havia também uma sensação de que eles precisavam de mais espaço, precisavam de começar uma coisa nova. A minha mãe vem duma aldeia de Trás-os-Montes, não tem história porque ela não conheceu a mãe nem o pai. A mãe morreu no parto duma próxima irmã. Ela ficou órfã, abandonada, depois foi acolhida por um padre que se apresentou como sendo tio delas. Então até o nome dela foi rescrito, foi inventado para ela não ter uma ligação com a sua mãe - uma "senhora do pecado". Penso que ela queria muito sair dali quando era nova, o meu pai passou... "distraído", ela agarrou-o e foram para o Porto. Depois foram de Portugal para Moçambique e nascemos nós, três irmãos, eu sou o do meio. Fernando Amado, dois anos mais velho, e o mais novo, que tem uma diferença de sete anos de mim, chama-se Armando Jorge. [...] O meu pai, com um grupo de alguns portugueses que tinham sido deportados de Portugal por motivos políticos, formaram associações do tipo cineclubes, centros culturais onde se faziam debates de certas coisas. O meu pai trabalhava em três jornais, o Notícias da Beira, o Diário de Moçambique e o Notícias, de Lourenço Marques.

[...] A Beira era uma cidade muito conflituosa porque a fronteira entre os brancos e os negros era uma fronteira muito misturada, muito "atravessada". E eu recordo-me - toda a minha infância é uma infância de viver no meio de negros, brincar, com eles, os meus amigos, as pessoas que eu posso referenciar da minha infância, com a excepção dos meus irmãos e mais alguns, todo o resto é uma infância toda vivida ali.

[...] Vivemos em quase todas as partes da Beira. O meu pai mudava constantemente de bairro. Mas era constante essa mistura. Porque a Beira é uma cidade conquistada ao pântano. Então, à medida que era possível secar uma região e construir casa de cimento isso fazia-se. Mas estavam lá as casas dos negros locais. Então, sempre do outro lado da rua havia africanos com casa de caniço. Não tanto esta arquitectura arrumada, de urbanização feita com plano, como aconteceu em Lourenço Marques. Vivi muito nessas zonas suburbanas, periféricas.

[...] Os brancos da Beira eram profundamente racistas. Quando eu saí da Beira para Lourenço Marques, em 1971, parecia-me que estava noutro país, porque na Beira havia quase apartheid em certas coisas. Não podiam entrar negros nos autocarros, só no banco de trás... Enfim, era muito agressivo. No Carnaval os filhos dos brancos vinham com paus e correntes bater nos negros... Recordo-me duma história: eu tinha um senhor que me dava explicações de matemática, privadas, e ele era pai dum coronel que tinha feito um massacre em que tinham sido mortos 125 ou 130 camponeses. E ele tinha fotografias do massacre dentro de casa, como uma glória! Eu só andei uma semana naquelas explicações. Nós chamávamos-lhe o "Bengalão", porque ele tinha uma bengala grande, e quando começava a sessão de estudo ele mandava sair as mulheres - as meninas - e ficava só com rapazes, e dizia: "Cuidado, porque o pretinho está-nos a ouvir, é preciso impedir isso. Na escola eu tenho que baixar as notas dos negros para eles nunca ficarem à vossa frente, vocês têm que me ajudar nesta luta..." - e aquilo era uma coisa que para mim soava horrível.

[...] Eu guardo na minha infância, assim, uma coisa muito esbatida, um ponto de referência, as histórias que me eram contadas, dos velhos que moravam perto, vizinhos do outro lado da rua, de um outro mundo, e eu recordo esse mundo encantado até algumas histórias, sobretudo como eles me deixaram uma marca. Os meus dois irmãos também escreviam, com 16, 17 anos, e o meu irmão Carlos mais cedo, até. O meu pai tinha muito esta coisa que eu era o filho que lhe ia continuar a veia. [...] em 83, publiquei o meu primeiro livro. Como uma espécie de contestação contra o domínio absoluto da poesia militante, panfletária. Para se ser revolucionário era preciso falar de marxismo, nos operários, e eu resolvi fazer um livro de poesia íntima, intimista, lírico. E o Orlando Mendes, que faleceu agora, fez-me um prefácio bonito, explicando que era uma coisa "nova", no sentido de que se pode fazer uma poesia de vanguarda sem se falar muito em política. O livro esgotou-se rapidamente, não é o mérito daquele livro, quase todos eles se esgotavam.

Influências? Do Craveirinha, sim, um pouco do Craveirinha. Mas eu apaixonei-me mais pela linha dos brasileiros, pelo João Cabral de Melo Neto, pelo Carlos Drummond de Andrade. Quando comecei a descobrir o mundo da poesia pensava que os brasileiros tinham valores maiores. Talvez fosse uma resistência minha. Achava que havia uma certa injustiça praticada no relevo que se dava aos poetas portugueses em relação aos brasileiros, quando estes tinham superado os próprios portugueses. Sim, mas também tive a influência de alguns poetas portugueses, como Sofia de Mello Breyner, o Eugénio de Andrade, o Fernando Pessoa."

MIA COUTO

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Zé Carioca e o imperialismo americano no Brasil

tópicos de história
http://topicosdehistoria.blogspot.com.br/2012/05/ze-carioca-e-o-imperialismo-americano.html


Zé Carioca e o imperialismo americano no Brasil


"A história do Zé Carioca está ligada a uma viagem que Walt Disney fez à America Latina em 1941. O Mundo Vivia sob o impacto da Segunda Guerra. A vinda de Disney - sugestão de Nelson Rockfeller, alto funcionário do governo americano - tinha o propósito de inspirar o desenhista a fazer filmes sobre o nosso continente, como forma de política de boa vizinhança...
A equipe americana esteve primeiramente na região do Lago Titicaca, no Peru, depois na Argentina e finalmente no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro." (Edição histórica Zé Carioca 60 anos)
Introdução

A historiadora Thais Garcia de Oliveira Rocha em seu artigo publicado recentemente na revista Tempo nos ajuda a entender como os EUA usaram os meios de comunicação para exercer sua soberania.

Passadas a primeira e a segunda grande guerra os EUA se tornaram a grande potencia mundial, a maior economia do mundo. Com a Europa devastada os governantes americanos temiam a propagação do comunismo no velho continente, para eles aqueles países em ruína eram mais propensos ao radicalismo e revolução social divergentes da sociedade de livre comércio.

A revolução russa de 1917 tinha se mostrado eficaz transformando a Rússia numa potencia mundial. A situação agora era diferente. A Rússia era um país devastado pela guerra. Conforme Hobsbawm (1995, p. 231) "...enquanto os EUA se preocupavam com o perigo de uma possível supremacia mundial soviética num dado momento do futuro, Moscou se preocupava com a hegemonia de fato dos EUA, então exercida em todas as partes do mundo não ocupadas pelo exército vermelho”.

Os americanos temiam que o comunismo chegasse aos países europeus e A Rússia temia a expansão americana. Por ser uma democracia a política americana de contenção soviética aconteceu de modo sutil através da construção de um sentimento de perigo mundial. Os americanos imbuídos do sentimento de que sua missão (intervencionismo) era de levar a democracia a todos os oprimidos (ao mesmo tempo expandindo sua economia) usou de uma arma peculiar para convencer os americanos e o mundo de que o estilo de vida americano era superior (ufanismo): a cultura*.

Desde o início do século XX os EUA criaram políticas expansionistas para legitimar sua intervenção em outros países. Por exemplo: Big Stick (Polícia internacional do Ocidente), uma política mais branda através da promoção de filmes nos estúdios de Hollywood³ que promoviam a política de boa vizinhança¹ e o ufanismo americano² pós-guerra (engrandecer o estilo de vida americano em detrimento do inimigo). 

A produção de quadrinhos: "Os quadrinhos tiveram um importante papel na construção do mal soviético, tanto internamente quanto externamente. Sua alta circulação e seu fácil acesso permitiu que a mensagem fosse divulgada em várias partes do mundo, inclusive na Índia, que chegou a adaptar alguns personagens americanos.(ROCHA)" 

Exemplos: O Quarteto Fantástico, Homem Aranha, Homem de Ferro, O Incrível Hulk, Capitão América.

  

 

No Brasil, irei me deter a construção da figura do Zé Carioca que é o representante do Brasil entre os animais falantes do Walt Disney. Para isso irei ter como base o artigo de Roberto Elísio dos Santos - Zé Carioca e a Cultura Brasileira.

A construção da figura do papagaio Zé Carioca se insere no contexto da política de boa vizinhança americana. Os quadrinhos da Walt Disney se caracterizam por possuir elementos culturais dos países em que estão inseridos os personagens. Zé Carioca é um exemplo que veremos mais a frente.

A Origem e características do personagem

"..., Zé Carioca cumpria uma função política: integrar os países da América Latina ao esforço dos aliados" (SANTOS). Para isso, os produtores procuraram eleger alguns elementos culturais brasileiros para a formação do personagem como a cordialidade, simpatia, malandragem, esperteza, indolência, etc.

Segundo Santos, percebe-se quatro fases na construção do personagem Zé Carioca:

I - Fase americana (1942-44): produzido por artistas americanos abordam suas tentativas de subir na vida sem esforço, através da malandragem.

II - Fase de transição (1955): Produzido pelo quadrinista argentino Luis Destuet Zé Carioca se torna um adjuvante nas aventuras protagonizadas por Donald e seus sobrinhos.

III - Fase de adaptação (1961-1970): Produção brasileira. Tem como característica envolver o personagem no cotidiano brasileiro cercado de elementos que caracterizam a cultura nacional.

IV - Fase de assimilação (1971-1990): Aqui o papagaio já está imerso na realidade brasileira de país em desenvolvimento (miséria, dívida externa, ônibus lotado, falta de água em casa) e suas principais características foram aguçadas: aversão ao trabalho, preguiça e malandragem.



Como almoçar de graça (1942)

Zé Carioca e o Goleiro Gastão (1961). 
Ed. 1311, (1976) Retratando a dívida externa brasileira.
"Zé Carioca harmoniza o paradoxo de cordialidade e malandragem, não como contradição, mas como condição intríseca de sua personalidade..." (SANTOS). Ele não é pobre nem rico, sua malandragem é buscar ter uma vida boa, curtir o momento, desfrutar do conforto, etc.

Mickey é aquele que obedece as leis. Pato Donald e Zé Carioca são os excluídos da sociedade. Enquanto Donald luta para ser aceito sem sucesso, o Zé recusa a se submeter a regras rígidas, tem resistência a integração (casamento, família e trabalho). O Zé Carioca absorveu características de personagens presentes na cultura brasileira. Por exemplo: Jeca Tatu e Macunaíma (indolência e malandragem).

A produção do Zé Carioca a princípio de origem americana, com o tempo foi ganhando contornos mais brasileiros incorporando o arquétipo popular - o malandro que vive em situações comuns ao ambiente nacional (samba, carnaval, futebol, folclore, etc). O Zé Carioca é a evolução do malandro brasileiro.



Evolução da Vestimenta do Malandro
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colonialismo: fotografia

colonialismo: fotografia




























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fotografia: colonialismo

Wendell Guedes
 Da Igreja à Moenda: a sociedade colonial brasileira.
Power point















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TINTIN

TINTIN
personagem criada pelo belga Georges Remi (1907 - 1983), mais conhecido como Hergé. Suas histórias em quadrinhos é motivo de preconeitos, racismos e colonialismos.









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http://en.wikipedia.org/wiki/The_Adventures_of_Tintin

Controversy [edit]

The earliest stories in The Adventures of Tintin have been criticised[49][50] for both displaying animal cruelty as well as racial stereotypes, violent, colonialist, and even fascist leanings, including caricatured portrayals of non-Europeans (Ethnocentrism). While the Hergé Foundation has presented such criticism as naïveté,[51] and scholars of Hergé such as Harry Thompson have claimed that "Hergé did what he was told by the Abbé Wallez",[51] Hergé himself felt that his background made it impossible to avoid prejudice, stating that "I was fed the prejudices of the bourgeois society that surrounded me."[29]
In Tintin in the Land of the Soviets, the Bolsheviks were presented without exception as villains. Hergé drew on Moscow Unveiled, a work given to him by Wallez and authored by Joseph Douillet, the former Belgian consul in Russia, that is highly critical of the Soviet regime, although Hergé contextualised this by noting that in Belgium, at the time a devout Catholic nation, "Anything Bolshevik was atheist".[29] In the story, Bolshevik leaders are motivated only by personal greed and by a desire to deceive the world. Tintin discovers, buried, "the hideout where LeninTrotsky, and Stalin have collected together wealth stolen from the people". Hergé later dismissed the failings of this first story as "a transgression of my youth".[51] By 1999, some part of this presentation was being noted as far more reasonable, with British weekly newspaper The Economist declaring, "In retrospect, however, the land of hunger and tyranny painted by Hergé was uncannily accurate".[52]
Tintin in the Congo has been criticised as presenting the Africans as naïve and primitive. In the original work, Tintin is shown at a blackboard addressing a class of African children. "Mes chers amis," he says, "je vais vous parler aujourd'hui de votre patrie: La Belgique" ("My dear friends, I am going to talk to you today about your fatherland: Belgium"). Hergé redrew this in 1946 to show a lesson in mathematics.[53][54] Hergé later admitted the flaws in the original story, excusing it by saying, "I portrayed these Africans according to ... this purely paternalistic spirit of the time".[29] The perceived problems with this book were summarised by Sue Buswell in 1988[55] as being "all to do with rubbery lips and heaps of dead animals" although Thompson noted this quote may have been "taken out of context".[51] "Dead animals" refers to the fashion for big game hunting at the time of the work's original publication.
Drawing on André MauroisLes Silences du colonel Bramble, Hergé presents Tintin as a big-game hunter, accidentally killing fifteen antelope as opposed to the one needed for the evening meal. However, concerns over the number of dead animals did lead the Scandinavian publishers of Tintin's adventures to request changes. A page which presented Tintin killing a rhinoceros by drilling a hole in the animal's back and inserting a stick of dynamite was deemed excessive, and Hergé substituted a page in which the rhino accidentally discharges Tintin's rifle while he slept under a tree.[37] In 2007 the UK's Commission for Racial Equality called for the book to be pulled from the shelves after a complaint, stating that "it beggars belief that in this day and age that any shop would think it acceptable to sell and display 'Tintin In The Congo'."[56][57] In August 2007, a complaint was filed in Brussels, Belgium, by a Congolese student, claiming the book was an insult to the Congolese people. Public prosecutors are investigating, however, Belgium's Centre for Equal Opportunities warned against "over-reaction and hyper political correctness".[58]
Some of the early albums were altered by Hergé in subsequent editions, usually at the demand of publishers. For example, at the instigation of his American publishers, many of the black characters inTintin in America were re-coloured to make their race white or ambiguous.[59] The Shooting Star originally had an American villain with the Jewish surname of "Blumenstein". This proved to be controversial, as the character exhibited exaggerated stereotypically Jewish characteristics. "Blumenstein" was changed to an American with a less ethnically specific name, Mr. Bohlwinkel, in later editions and subsequently to a South American of a fictional country – São Rico. Hergé later discovered that 'Bohlwinkel' was also a Jewish name.[26]


TINTIN
filme dirigido pelo Spielberg - 2011
Secret of the Unicorn


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