Wednesday, 8 May 2013

Historia Ambiental Latinoamericana y Caribeña, Vol 2, No 2 (2013)


Historia Ambiental Latinoamericana y Caribeña, Vol 2, No 2 (2013)


http://www.fafich.ufmg.br/halac/index.php/periodico/article/view/64



Historia Ambiental Latinoamericana y Caribeña, Vol 2, No 2 (2013)

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Sobre la sociedad ambiental. Un intento de decolonizar el franquismo y el desarrollismo desde Europa

Pablo Corral Broto

Resumen


Gracias al estudio de las acciones y razonamientos ambientales contra la transformación productivista e industrialista del medio ambiente durante la dictadura franquista (1939-1979), pretendemos analizar cómo fue posible que la sociedad española reclamase cambios dentro de un sistema dictatorial. Estas acciones y culturas ambientales tan heterogéneas aparecieron en diferentes actores: urbanos, rurales, de montaña; obreros, campesinos y terratenientes; religiosos, intelectuales, sindicatos, partidos políticos, etc.  Como resultado de todo ello emergió una nueva crítica ambiental a un modelo autoritario de desarrollo e industrialización. Pero, ¿hasta qué punto fue la reclamación de un cambio ambiental universal? Y, ¿qué configuraría este mosaico ambiental en términos de sociedad? Para resolver esta cuestión, la herramienta epistémica de la teoría decolonial, justificada por las fuentes mismas gracias al empleo de una perspectiva local y regional (Aragón), pueden ayudarnos a crear nuevos marcos de interpretación y de análisis de sociedades y culturas ambientales emergentes.


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Sunday, 5 May 2013

Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda

carta maior
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Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda

‘Tiros em Ruanda’ (2005), filme dirigido por Michael Caton-Jones, narra o caos legado pelos antigos colonizadores belgas. Consta que antes da chegada dos europeus, não havia hostilidade entre tutsis e hutus. Mas era preciso dividir para reinar.

“Ruanda, 1994. Durante 30 anos, o governo da maioria (étnica) hutu perseguiu a minoria tutsi. Sob pressão do Ocidente, o presidente hutu concordou, não sem relutância, em dividir o poder com os tutsis. A ONU enviou uma pequena força à capital Kigali para monitorar a frágil paz”. 

Eis a epígrafe de Tiros em Ruanda (2005), filme dirigido por Michael Caton-Jones. Eis o caos legado pelos antigos colonizadores belgas. Consta que antes da chegada dos europeus, não havia hostilidade entre tutsis e hutus. Mas é preciso dividir para reinar. Assim, os belgas decidem arregimentar entre os nativos os negros com traços menos africanos para estabelecer um governo colonizador híbrido. Administração eugênica: os tutsis seriam mais altos, teriam narizes mais afilados. Segundo os parâmetros protonazistas dos colonizadores, não poderiam ser considerados europeus, mas tampouco seriam rebaixados a hutus. “Sub-humanos” elevados a cargos administrativos sob a tutela belga. 

Com o processo de descolonização do continente africano após a Segunda Guerra, os belgas saíram de cena. A maioria hutu, então, começou a dar vazão ao ressentimento colonial. Já que os europeus não poderiam ser batidos, que tal aniquilar a minoria étnica que tratava os hutus como escravos? Outrora apêndices dos senhores brancos, os tutsis passaram a ser chamados de baratas. (No que os hutus se mostraram bons estudantes de história: afinal, o antissemitismo europeu não tratara os judeus como piolhos?) Que fazemos com as baratas? Os leitores de Franz Kafka bem conhecem as agruras pelas quais o jovem Gregor Samsa teve que passar após sofrer A metamorfose (1915) que o transformou em um inseto.

− Inseto tutsi! – arrematariam os genocidas hutus munidos de seus facões ensanguentados. 

Em abril de 1994, um golpe de Estado hutu faz a paz se esgueirar entre os escombros. Os tutsis tentarão rezar, mas logo haverá bem mais do que choro e ranger de dentes. As comportas do caos serão abertas. Haverá o silêncio impassível de mais de 800 mil cadáveres étnicos. 

Uma Escola Técnica Oficial (ETO) se transforma em base para os soldados da ONU e em inusitado campo de refugiados tutsis. Os soldados irão intervir no massacre? Corpos e mais corpos retalhados se amontoam ao redor da ETO. Os hutus desconhecem a matança clínica e industrial dos campos de concentração europeus. Os facões picam os corpos como outrora cortavam a relva pela mão dos escravos que agora só querem retaliação. Os soldados da ONU irão intervir no massacre? 

− Não somos pacificadores, isto é, não estamos aqui para manter a paz. Estamos aqui para observá-la e monitorá-la. Só podemos disparar em legítima defesa. E a utilização das metralhadoras requer autorização prévia do comando subordinado ao Conselho de Segurança. 

A Organização das Nações Unidas protege os direitos humanos: os 40 europeus que haviam se refugiado na ETO logo são levados ao aeroporto de Kigali sob forte escolta da Legião Francesa. A Organização das Nações Unidas vela os detritos humanos: os tutsis sitiados na ETO ficarão sob a proteção dos soldados até que o alto comando faça os militares bater em retirada. Então, os rebeldes poderão cruzar os portões para cumprir os desígnios da rádio hutu: 

− Quem vai encher os túmulos vazios? As baratas estão escondidas nas igrejas! As baratas estão escondidas nas escolas! 

Mas não, não: os soldados irão intervir no massacre. Os cachorros ruandeses – o manual do colonizador não especificou se os cães seriam tutsis ou hutus – começam a devorar os cadáveres. “Eis um risco gravíssimo de contaminação!” O capitão pede ao padre, o responsável pela ETO, que acalme os tutsis ainda vivos. “Vamos atirar nos cães. Eles não podem continuar a devorar os mortos. Para que não haja pânico, avise a todos que, por ora, os tiros serão amigos”. Enfurecido diante de um mundo que seu Deus parece ter abandonado, o padre prega ao capitão não o Sermão da Montanha, mas o Sermão da Estepe: 

− Vocês não têm permissão para atirar apenas em legítima defesa? Por que então pretendem alvejar os cães? Acaso eles lhes fizeram algum mal? Os cadáveres não podem mais comer, mas os cachorros ainda sentem fome – os cães que vocês querem matar e os cachorros humanos. Os cães não sabem que estão comendo seres humanos. Mas os tutsis sabem que serão devorados.

O clérigo tenta romper a inércia da ONU de todas as formas. Jornalistas já não se interessam pelo destino dos tutsis. “Afinal, o que há de novo em uma guerra civil africana?” Mas as câmeras se põem a postos quando o padre revela que há europeus na ETO. Enquanto Ruanda sangra aos olhos indiferentes do Ocidente, a Bósnia ariana recebe as forças de intervenção das Nações Unidas. Uma jornalista inglesa apresenta o critério de seleção das notícias mundo afora: 

− Sempre que eu via uma mulher bósnia, uma mulher branca, eu sentia que ela poderia ser minha mãe. Aqui em Ruanda são só africanos. 

Mas a repórter ainda tem tempo para se armar com o microfone e transferir o ônus do genocídio para o capitão inerte da ONU: 

REPÓRTER: O senhor qualificaria as ações da maioria étnica hutu como um genocídio? 

CAPITÃO (belga) DA ONU: (Hesita e gagueja antes de falar): Não sei exatamente, seria preciso quantificar as mortes. De qualquer forma, estamos aqui para observar a paz. 

A paz entre os cadáveres – e o cães. 

REPÓRTER: Mas o senhor sabe que, se estivermos diante de um genocídio, a ONU tem a obrigação de intervir... (As reticências tentam apresentar ao leitor e potencial espectador de Tiros em Ruanda a interrupção abrupta da entrevista por conta do punho do capitão contra a câmera.) 

Mas ainda há tempo para agir: enfim o capitão recebe ordens de seu alto comando. “É hora de partir, padre”. Se o militar se lembrasse das aulas de catecismo, teria uma citação evangélica na ponta da língua para fazer com que Jesus Cristo caminhasse não sobre as águas, mas sobre os corpos de Ruanda: 

− É hora de partir, padre. Deixemos que os mortos enterrem os mortos. 

Mas ainda há tempo para suplicar: um representante tutsi se dirige ao capitão da ONU com uma carta. “Um último pedido, capitão”. 

− Nós, refugiados tutsis da Escola Técnica Oficial, suplicamos aos soldados das Nações Unidas que nos fuzilem. Será muito mais rápido e indolor do que morrer sob os facões hutus. Por favor, matem primeiro nossas crianças, poupem-nas do sofrimento! 

A câmera dá um close no rosto do capitão belga. 

Os tutsis revisitam a descoberta dos prisioneiros de Auschwitz: em campos de concentração e de refugiados, a morte deixa de ser uma temeridade. A morte redime. 

A câmera continua a dar um close na máscara do capitão da ONU. 

O último pedido dos condenados ruandeses não poderá ser realizado. Afinal, as Nações Unidas não empregam assassinos. Monitorar a paz implica não fazer a guerra. Monitorar a paz implica terceirizar a guerra. O capitão belga não fará as pazes com o passado imperialista de sua nação. Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda. 


*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será lançado no dia 20 de abril, às 18h, na livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, ao lado da estação Brigadeiro do metrô. Link com mais informações:http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2013/03/lancamento-do-livro-o-evangelho-segundo.html. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. 

Dedico este texto à minha querida amiga Vânya Tsutsui, que neste momento trabalha em Ruanda para que tutsis e hutus convivam pacificamente apesar da Lei de Talião que o colonizador europeu lhes legou.
 

Estudar, vigiar e punir 'Entre os muros da escola'

carta maior
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Estudar, vigiar e punir 'Entre os muros da escola'

Em uma escola da periferia parisiense, os vestígios do colonialismo francês se fazem presentes. Há adolescentes de vários países da África, do Oriente Médio e da Ásia. O professor de francês (branco) tentará ensinar aos alunos a língua de Voltaire e Rousseau, a língua do Iluminismo. No filme 'Entre os muros da escola' (2008), de Laurent Cantet, é preciso estudar, vigiar e punir.

Início do ano letivo Entre os muros da escola (2008), filme dirigido por Laurent Cantet. Título nada gratuito: é preciso estudar, vigiar e punir. Em uma sala de aula de uma escola da periferia parisiense, os vestígios do colonialismo francês se fazem presentes. Adolescentes de vários países da África, do Oriente Médio e da Ásia. O professor de francês (branco) tentará ensinar aos alunos a língua de Voltaire e Rousseau, a língua do Iluminismo. 

Como entender o projeto das Luzes sem mencionar o papel fundamental que a educação teria para a transformação da humanidade? O problema é que, via de regra, as luzes dos holofotes precisam conviver com as sombras que se insinuam. Que fazer com os povos “bárbaros” que não tiveram o bom quinhão de pertencer originariamente aos domínios franceses? Ora, é preciso colonizá-los, isto é, educá-los. 

No princípio eram os nomes dos alunos. “Vocês devem se apresentar uns para os outros”. Uma aluna árabe e espirituosa interpela o professor: 

− E quanto ao senhor? O senhor não vai nos dizer seu nome? Por que só nós precisamos nos apresentar? 

O processo de descolonização que se aprofundou após a Segunda Guerra trouxe à tona a percepção de que a diferença precisa ter voz. Os soldados coloniais não ajudaram os aliados a derrotar a eugenia de Hitler? Sendo assim, por que a civilização europeia continua a manter o etnocentrismo como uma de suas bases? Sem ter efetiva consciência do pano de fundo histórico que alicerça sua colocação, uma aluna negra interroga o gramático francês: 

− Professor, por que os nomes que o senhor utiliza nunca são africanos ou árabes? Por que sempre temos que ler algo sobre Bill ou Jean? 

Se o professor tivesse consciência do papel social a que é relegado, os muros da escola desvelariam a sala como mais uma cela de aula. Professor e carcereiro. É preciso levantar o braço para falar, é obrigatório ter autorização para ir ao banheiro, é rotineiro aprender tópicos anacrônicos e ossificados que não dialogam com as mudanças sociolinguísticas do francês pós-colonial: 

− Professor, se ninguém mais usa o imperfeito do subjuntivo para falar, por que nós estamos aprendendo isso? Ninguém fala assim. E por que o senhor nos recrimina quando falamos gírias? Por acaso os franceses não vão ao banheiro? Os senhores sempre defecam? Os senhores nunca cagam? 

Pedagogia do cárcere: o processo de ensino também fica emparedado Entre os muros da escola

A escolha do professor de francês como protagonista – ou pior, anti-herói – é certeira. A língua discrimina a nacionalidade, a classe social, o orador docente e os entediados ouvintes discentes. A língua conjuga o poder. Mas o contexto pós-colonial da segunda metade do século XX começa a questionar e a embaralhar os papeis hierárquicos antes nitidamente demarcados. Pais e alunos participam dos conselhos escolares. Para que o poder (escolar) continue a (re)produzir suas advertências e expulsões, é preciso ouvir o que o aluno tem a dizer em legítima defesa. Como muitos diretores e professores fazem questão de frisar, aluno, etimologicamente, é aquele que não tem luz – “a”, não, “luno”, luz –, aquele que, então, precisa aprender. Ainda que a pedagogia democrática postule o respeito à alteridade como um de seus princípios, será que a escola ilhada entre seus muros consegue efetivamente ressignificar e confrontar os processos de exclusão e discriminação? Enunciar que o ensino não é mais o vértice do processo pedagógico antes centrado no professor para falar sobre o processo de ensino-aprendizagem que passa a envolver os educandos na construção das práticas escolares realmente questiona de maneira radical a política hierárquica da instituição? Quando o diretor vai à cela de aula para apresentar um novo estudante à classe, todos precisam se levantar. É bem verdade que o diretor precisa minimamente se explicar, “pois o fato de vocês terem que se levantar não é sinal de humilhação ou de submissão, mas de respeito ao novo colega”. Mas a assimetria das posições permanece. Uma efetiva preparação e conformação para a realidade excludente que os muros da escola só fazem ressoar. 

O filme do diretor Laurent Cantet, nesse sentido, esgarça a ferida e aponta uma série de limitações para a implementação da democracia escolar que a pedagogia da alteridade pretende estabelecer. Ora, seria preciso derrubar os muros da escola para que a instituição fosse vista não como uma mônada fechada em si mesma, como um organismo que se constitui com suas próprias práticas, mas como um microcosmo que articula o e dispõe do conhecimento básico dos cidadãos: o que estudar, como estudar, como se portar – e ter que obedecer. Os estudantes bem sabem que não têm voz na escolha dos livros com que precisam se digladiar. Seus hábitos e conhecimentos locais são simplesmente abstraídos e preteridos pela escola. A educação industrial padroniza o conteúdo do ensino e a obediência discente. Tanto pior, então, se o aluno da periferia parisiense não se parecer com um francês considerado típico. 

Entre os muros da escola se aparta da idílica filmografia escolar hollywoodiana. Ao mestre com carinho: alunos rebeldes e desordeiros encontram um professor idealista e engajado que promove uma verdadeira revolução em sua sala de aula muitas vezes contra o conservadorismo da direção. O voluntarismo da indústria cinematográfica norte-americana é questionado frontalmente. Não se trata apenas de projetar a mudança institucional com um mero apelo à vontade e ao ímpeto. A inércia social não será combatida apenas com o amor à docência. Os alunos da periferia parisiense (e brasileira) já não veem sentido em suas aulas. A escola praticamente não lhes diz respeito. A pedagogia pretende insuflar democracia entre os muros escolares, mas em grande medida ainda não se deu conta de que a sala de aula continuará a reproduzir as clivagens sociais se o âmbito da mera enunciação não for superado. O educando aprende e entende que a diversidade étnica e cultural é uma conquista histórica fundamental que tenta romper com o etnocentrismo. Ao sair da escola, no entanto, a polícia promove mais uma batida e faz com que os alunos se prostrem diante dos mesmos muros escolares que há pouco lhes haviam prometido – e usurpado – liberdade, igualdade, fraternidade e, sobretudo, respeito à diversidade. 

*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será lançado no dia 20 de abril, às 17h, na livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, ao lado da estação Brigadeiro do metrô. Link com mais informações:http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2013/03/lancamento-do-livro-o-evangelho-segundo.html. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. 

mia couto - mãe

cada menino nascido faz nascer uma mãe
~ mia couto

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Saturday, 4 May 2013

A esfinge, o BNDES e as “campeãs” que nos devoram

correio da cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8329:manchete030513&catid=34:manchete

A esfinge, o BNDES e as “campeãs” que nos devoram

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ESCRITO POR LUIS FERNANDO NOVOA GARZON   
SEXTA, 03 DE MAIO DE 2013


Se Petrobrás, Vale, JBS, Gerdau, Odebrecht, BR-Foods e Fíbria são exemplos de “campeãs nacionais”, presume-se que tornem seu país-sede igualmente campeão. Nos EUA, a transfiguração do particular em universal fez escola e um lema de um dirigente da GM, nos anos 50, seria exemplar nesse sentido: "What's good for GM is good for America”. No Brasil, em operação discursiva similar, décadas depois, paixões e os interesses privados das “campeãs” são transmutados em virtudes públicas da nação. Na prática, o caminho delas foi reverso.

Primeiro tomaram forma em meio aos anos de desmonte e privatização. Depois, dos pedaços do país, foram se fazendo inteiras. Tanto mais sólidas quanto mais débeis os mecanismos de controle e regulamentação social e quanto mais capturadas as instâncias decisivas do Estado. Agigantadas por meio de sucessivos e inapeláveis apequenamentos, eis que agora são vórtices de multiplicação e valorização de capital além fronteiras.

As multinacionais “nacionais” campeãs trazem inscritas em si a fórmula do consenso básico entre as frações do bloco no poder, em variável proporção de associação entre capitais internos e estrangeiros, que chamam para si o papel de catalisadores dos interesses nacionais, em um continuum grandes empresas-Estado. O acordo por cima depende do grau de intensividade e extensividade das “fugas para frente” do capitalismo brasileiro, em que se conjugam formas renovadas e permanentes de expropriação no plano interno e externo.

Na fase inicial da crise, a partir de 2008, as imbricações e opções se clarificaram e o Governo fez uso de todas as formas de ferramentas disponíveis para sustentar um padrão de acumulação determinado. Crédito e investimentos públicos vieram em socorro dos setores de celulose, mineração e siderurgia básica, indústria de carnes e derivados, gás e petróleo e setores de infraestrutura. Para consolidar “empresas-líderes” justamente nesses setores, fusões e aquisições foram viabilizadas pelo BNDESPAR, que teve seu ativo turbinado no período, passando de 25 bilhões de reais em 2007 para 125,8 bilhões de reais em 2011. O último dado disponível, referente ao ano de 2012, indicava que, dos 74,5 bilhões de reais da carteira total de ações do BNDESPAR, 84% estavam concentrados em apenas 10 companhias e 89% em somente cinco setores: petróleo, mineração, energia, frigoríficos e celulose.

Com relação aos desembolsos financeiros, o BNDES expandiu ainda mais o direcionamento de crédito para empresas de grande porte. O pico foi o ano de 2009, quando mais de 80% dos seus empréstimos foram canalizados para um universo de até 50 empresas e isso, ressalte-se, num montante de 137,4 bilhões de reais desembolsados naquele ano, em comparação com os 64,9 bilhões de 2007. O quadro pouco se altera em 2012, em termos relativos ou absolutos: dos 156 bilhões de reais desembolsados, 68% foram canalizados para as grandes empresas. (BNDES, 2013).

Declarações recentes do presidente do BNDES, no sentido de que a política de priorização da competitividade dos grandes grupos nacionais é uma “agenda concluída”, podem sugerir atritos na definição da política de financiamento do Banco. Na verdade, estamos diante de um processo de reacomodação de interesses, entre grupos capitalistas de distintas extrações, que se explicita na transição dos perfis das três políticas industriais adotadas desde 2003. A Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior–PITCE (2003-2008) pôs-se na contramão dos padrões de competitividade definidos pelo mercado, selecionando setores de ponta e com maior “capacidade inovacional”: semicondutores, softwares, bens de capital e fármacos. A PITCE tornou-se então meramente protocolar e discursiva, com exceção para os bens de capital voltados para o aumento da produtividade do agronegócio e dos setores de mineração e energia.

Em 2008, já com a crise instalada, surge a Política de Desenvolvimento Produtivo-PDP (2008-2011), que passava a priorizar as “empresas-líderes”, desde então enquadradas automaticamente como indústrias extrativas ou de base. Coutinho, em avaliação dos motivos que levaram o governo e o BNDES a sustentar essa nova política, afirmava ser imperiosa a aceleração do crescimento das exportações, para que se alcançasse um “superávit comercial mínimo”, de modo a contrabalançar “déficits estruturais”; assim qualificados por serem intocáveis as prerrogativas dos credores financeiros e dos demais beneficiários de políticas macroeconômicas restritivas (metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante). O reconhecimento dessa condição imperativa, prossegue Coutinho, “implica a priorização da política de competitividade”. A confissão se completa ao nominar os setores-alvo da agenda da PDP: “São exemplos desse tipo de agenda a grande cadeia de petróleo e gás, a petroquímica, vários agronegócios, carnes e proteínas, celulose e papel e mineração” (COUTINHO, 2010, p. 29).

Se tal agenda foi concluída, como afirmou o presidente do BNDES em sua mais recente declaração, podemos depreender que o BNDES terá menos peso na definição das estratégias conglomeradoras e da própria concorrência entre oligopólios nacionais-internacionais?

O Plano Brasil Maior/PBM (2011-...) já indicava traços de uma recomposição feita mais de acréscimos que de exclusões. O PBM parte da premissa de que precisa favorecer a “integração entre os setores público e privado” - leia-se a subsunção do primeiro no segundo. Os três conjuntos de medidas propostas pelo PBM (redução dos custos do trabalho e do capital; estímulo do desenvolvimento das cadeias produtivas; estímulo às exportações e defesa comercial) confirmam a equação. Mas, tanto na abrangência do Plano como nas medidas operacionais, são recuperadas metas antes colocadas na PITCE. Haveria uma nova premência colocada para a política industrial brasileira: “(...) o adensamento da produção local e do conteúdo tecnoló­gico das cadeias produtivas”.

As “campeãs” de modo algum estão excluídas do PBM, já que o plano prevê medidas e programas ainda mais detalhados para o aumento da produtividade das cadeias produtivas competitivas e o aprofundamento de sua internacionalização. Fica nítido o esforço de combinar expansão com capilarização, a partir da exigência do aumento do conteúdo nacional de produtos e componentes. Acopla-se ainda ao PBM o Programa Integrado de Logística (PIL), que se propõe a fatiar e ofertar aos investidores privados os setores de infraestrutura mais rentáveis, além de sua financeirização respectiva, através de debêntures e garantias ilimitadas do BNDES.

Põem-se em ação esforços combinatórios para efetivar a inter-institucionalidade de um Estado desigualmente privatizado e a inter-setorialidade de uma indústria desigualmente desmontada. A manutenção de uma taxa média de lucro e a formação de novos mercados (marketmaking) é o que permite a pacificação dos estratos burgueses nacionais e/ou estrangeiros e a convergência consequente para garantir a anuência ou o apoio passivo da população trabalhadora.

A burguesia interna brasileira procura, concomitantemente, resolver-se (entre seus segmentos e frações aliadas) e ainda ocupar lugar vantajoso na concorrência com seus pares estrangeiras na disputa por mercados e territórios externos. A conta desse rearranjo, intra e intercapitalista, vai sendo paga com o corte e limitação dos recursos para a seguridade social e a educação, com a continuada flexibilização dos direitos trabalhistas, com o sucateamento dos bens públicos e com a brutal mercadorização e supressão de territórios, biomas e comunidades.

Se são os pactos político-empresariais que espelham agora o “projeto de Nação”, como observamos no Plano Brasil Maior ou no Programa Integrado de Logística, é porque a palavra ‘nação’ tornou-se minúscula para dar lugar a um espaço ilimitado de valorização de capitais. Em meio ao vácuo de projetos coletivos, o coro particularista dos grupos mais internacionalizados e financeirizados vai aumentando o tom.

Ressaltem-se os apelos à abertura externa incondicional, em especial com a Aliança Transpacífico (TPP), uma zona tricontinental de livre-comércio, que procura impor um regime de soberania absoluta dos investimentos privados. Novas e mais profundas privatizações são exigidas. Alta dos juros como prova de acefalia governamental. Cumprimento estrito das metas de inflação e disciplinamento dos gastos públicos para garantir a estabilidade, não dos preços, mas das posições financeiras dominantes.

Por isso deve ser tarefa prioritária a análise e o desmascaramento das formas e funções do Estado - coetâneas com a dinâmica variante da acumulação capitalista - por grupos de pesquisa, Institutos e Fundações referenciados no pensamento crítico, em conjunto com movimentos e organizações sociais que não abdicaram de um horizonte anti-sistêmico de atuação. A meta é expor compromisso institucionalizado entre frações e segmentos de classe na regência de uma trajetória de desenvolvimento de seu exclusivo interesse. A partir dessa demarcação, poderemos ouvir as vozes nas suas respectivas bocas, franqueando o reconhecimento de novos sujeitos coletivos.

Referências bibliográficas
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Desempenho do BNDES em 2012. Rio de Janeiro: BNDES, 2013.
COUTINHO, L. A. construção de fundamentos para o crescimento sustentável da economia brasileira. In: ALEM, A. C., GIABIANGI, F. O BNDES em um País em Transição. Rio de Janeiro: BNDES, 2010. p. 17-38.

Luis Fernando Novoa Garzon é professor da Universidade Federal de Rondônia. E-mail: l.novoa(0)uol.com.br

Não haverá paz sem justiça ambiental


IHU - UNISINOS
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/519842-nao-havera-paz-sem-justica-ambiental-entrevista-com-luiz-augusto-passos


“Não haverá paz sem justiça ambiental”. Entrevista com Luiz Augusto Passos

Filósofo e integrante do Grupo de Pesquisa de Movimentos Sociais e Educação da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Luiz Augusto Passos realiza pesquisas na área de educação ambiental e movimentos sociais. Nesta entrevista, ele apresenta algumas interpretações dos paradoxos ligados à questão do meio ambiente.
A entrevista é publicada pelo jornal Zero Hora, 04-05-2013.
Eis a entrevista.
Por que a questão ambiental só é discutida quando há denúncia, acidente ou polêmica?
O filósofo alemão Wittgenstein dizia que aquilo que está muito perto dos olhos, a gente não enxerga. E a reiteração da situação acaba por torná-la natural. A gente se acostuma e não se sente mais comprometido. A questão ambiental está prejudicada porque a cultura que nos envolve está divorciada da natureza. A modernidade dividiu as questões do pensamento daquelas do mundo material. E elas são sempre inseparáveis. São duas faces de uma mesma moeda. É necessário um esforço contínuo de aproximá-las.
O meio ambiente ora é um bem público, ora é privado. Isso cria nas pessoas uma sensação de indiferença para a questão?
Infelizmente as pessoas se relacionam com os bens públicos e de acesso a todos e inserem-nas na área da exploração econômica, como é o caso da água, e do ar. A cada dia aquilo que pertencia por direito a todas as pessoas, por pura perversidade, tem sido reservado ao cativeiro do mercado. De forma que é exato o que você pergunta: há uma cultura mercadológica que pensa todos os seres como vinculados a uma lógica de mercado. Isso significa a perda do sentido de pertença à comunidade humana, à comunidade política, e a atribuição do poder político a uma representação, que dia a dia não nos representa, mas está a serviço de grandes interesses de corporações multinacionais. De sorte que saúde hoje se rege por uma cultura da doença e da morte. É preciso se redefinir o Estado brasileiro e a relação federativa, entendendo que o fundamento do poder pertence a cada cidadão.
Na história do Brasil, há situações em que o território, o ambiente e a biodiversidade foram alvo de disputas. Essas disputas seriam as raízes do paradoxo entre a indiferença e o excesso de zelo pela natureza?
Não creio que se possa chamar de indiferença. Penso que é um sentimento reiterado de não se ter a quem recorrer no campo do Direito. Tivemos agora a polêmica no âmbito dos poderes da República, e que esclarece muito bem o conflito posto pelo filósofo Giorgio Agamben, de que para salvar o Estado de direito se articulou o Estado de exceção. Busca-se hoje tanto esvaziar o Executivo, chamar todas as decisões ao âmbito das casas do Legislativo que em sua maioria expressiva não nos representam. E polemiza-se o âmbito do Judiciário. Os gaúchos sabem, todavia, que é bem perto do fogo que tem aragem. Trata-se de enfrentar os problemas trazendo-os à luz, sem temer expor, como hoje se expõe, essas situações de destruir os esforços de consolidar o âmbito de biodiversidade, de participação dos direitos dos mais empobrecidos e portadores de diferenças culturais, sobretudo indígenas, quilombolas, população ribeirinha, sem-terra. Não haverá paz sem justiça social e ambiental. Ninguém pode se eximir de contribuir nesta luta, que é de todos.
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Rámon Grosfoguel