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Sunday, 12 May 2013

TINTIN

TINTIN
personagem criada pelo belga Georges Remi (1907 - 1983), mais conhecido como Hergé. Suas histórias em quadrinhos é motivo de preconeitos, racismos e colonialismos.









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http://en.wikipedia.org/wiki/The_Adventures_of_Tintin

Controversy [edit]

The earliest stories in The Adventures of Tintin have been criticised[49][50] for both displaying animal cruelty as well as racial stereotypes, violent, colonialist, and even fascist leanings, including caricatured portrayals of non-Europeans (Ethnocentrism). While the Hergé Foundation has presented such criticism as naïveté,[51] and scholars of Hergé such as Harry Thompson have claimed that "Hergé did what he was told by the Abbé Wallez",[51] Hergé himself felt that his background made it impossible to avoid prejudice, stating that "I was fed the prejudices of the bourgeois society that surrounded me."[29]
In Tintin in the Land of the Soviets, the Bolsheviks were presented without exception as villains. Hergé drew on Moscow Unveiled, a work given to him by Wallez and authored by Joseph Douillet, the former Belgian consul in Russia, that is highly critical of the Soviet regime, although Hergé contextualised this by noting that in Belgium, at the time a devout Catholic nation, "Anything Bolshevik was atheist".[29] In the story, Bolshevik leaders are motivated only by personal greed and by a desire to deceive the world. Tintin discovers, buried, "the hideout where LeninTrotsky, and Stalin have collected together wealth stolen from the people". Hergé later dismissed the failings of this first story as "a transgression of my youth".[51] By 1999, some part of this presentation was being noted as far more reasonable, with British weekly newspaper The Economist declaring, "In retrospect, however, the land of hunger and tyranny painted by Hergé was uncannily accurate".[52]
Tintin in the Congo has been criticised as presenting the Africans as naïve and primitive. In the original work, Tintin is shown at a blackboard addressing a class of African children. "Mes chers amis," he says, "je vais vous parler aujourd'hui de votre patrie: La Belgique" ("My dear friends, I am going to talk to you today about your fatherland: Belgium"). Hergé redrew this in 1946 to show a lesson in mathematics.[53][54] Hergé later admitted the flaws in the original story, excusing it by saying, "I portrayed these Africans according to ... this purely paternalistic spirit of the time".[29] The perceived problems with this book were summarised by Sue Buswell in 1988[55] as being "all to do with rubbery lips and heaps of dead animals" although Thompson noted this quote may have been "taken out of context".[51] "Dead animals" refers to the fashion for big game hunting at the time of the work's original publication.
Drawing on André MauroisLes Silences du colonel Bramble, Hergé presents Tintin as a big-game hunter, accidentally killing fifteen antelope as opposed to the one needed for the evening meal. However, concerns over the number of dead animals did lead the Scandinavian publishers of Tintin's adventures to request changes. A page which presented Tintin killing a rhinoceros by drilling a hole in the animal's back and inserting a stick of dynamite was deemed excessive, and Hergé substituted a page in which the rhino accidentally discharges Tintin's rifle while he slept under a tree.[37] In 2007 the UK's Commission for Racial Equality called for the book to be pulled from the shelves after a complaint, stating that "it beggars belief that in this day and age that any shop would think it acceptable to sell and display 'Tintin In The Congo'."[56][57] In August 2007, a complaint was filed in Brussels, Belgium, by a Congolese student, claiming the book was an insult to the Congolese people. Public prosecutors are investigating, however, Belgium's Centre for Equal Opportunities warned against "over-reaction and hyper political correctness".[58]
Some of the early albums were altered by Hergé in subsequent editions, usually at the demand of publishers. For example, at the instigation of his American publishers, many of the black characters inTintin in America were re-coloured to make their race white or ambiguous.[59] The Shooting Star originally had an American villain with the Jewish surname of "Blumenstein". This proved to be controversial, as the character exhibited exaggerated stereotypically Jewish characteristics. "Blumenstein" was changed to an American with a less ethnically specific name, Mr. Bohlwinkel, in later editions and subsequently to a South American of a fictional country – São Rico. Hergé later discovered that 'Bohlwinkel' was also a Jewish name.[26]


TINTIN
filme dirigido pelo Spielberg - 2011
Secret of the Unicorn


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Sunday, 5 May 2013

Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21866&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior_Especial__05052013


Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda

‘Tiros em Ruanda’ (2005), filme dirigido por Michael Caton-Jones, narra o caos legado pelos antigos colonizadores belgas. Consta que antes da chegada dos europeus, não havia hostilidade entre tutsis e hutus. Mas era preciso dividir para reinar.

“Ruanda, 1994. Durante 30 anos, o governo da maioria (étnica) hutu perseguiu a minoria tutsi. Sob pressão do Ocidente, o presidente hutu concordou, não sem relutância, em dividir o poder com os tutsis. A ONU enviou uma pequena força à capital Kigali para monitorar a frágil paz”. 

Eis a epígrafe de Tiros em Ruanda (2005), filme dirigido por Michael Caton-Jones. Eis o caos legado pelos antigos colonizadores belgas. Consta que antes da chegada dos europeus, não havia hostilidade entre tutsis e hutus. Mas é preciso dividir para reinar. Assim, os belgas decidem arregimentar entre os nativos os negros com traços menos africanos para estabelecer um governo colonizador híbrido. Administração eugênica: os tutsis seriam mais altos, teriam narizes mais afilados. Segundo os parâmetros protonazistas dos colonizadores, não poderiam ser considerados europeus, mas tampouco seriam rebaixados a hutus. “Sub-humanos” elevados a cargos administrativos sob a tutela belga. 

Com o processo de descolonização do continente africano após a Segunda Guerra, os belgas saíram de cena. A maioria hutu, então, começou a dar vazão ao ressentimento colonial. Já que os europeus não poderiam ser batidos, que tal aniquilar a minoria étnica que tratava os hutus como escravos? Outrora apêndices dos senhores brancos, os tutsis passaram a ser chamados de baratas. (No que os hutus se mostraram bons estudantes de história: afinal, o antissemitismo europeu não tratara os judeus como piolhos?) Que fazemos com as baratas? Os leitores de Franz Kafka bem conhecem as agruras pelas quais o jovem Gregor Samsa teve que passar após sofrer A metamorfose (1915) que o transformou em um inseto.

− Inseto tutsi! – arrematariam os genocidas hutus munidos de seus facões ensanguentados. 

Em abril de 1994, um golpe de Estado hutu faz a paz se esgueirar entre os escombros. Os tutsis tentarão rezar, mas logo haverá bem mais do que choro e ranger de dentes. As comportas do caos serão abertas. Haverá o silêncio impassível de mais de 800 mil cadáveres étnicos. 

Uma Escola Técnica Oficial (ETO) se transforma em base para os soldados da ONU e em inusitado campo de refugiados tutsis. Os soldados irão intervir no massacre? Corpos e mais corpos retalhados se amontoam ao redor da ETO. Os hutus desconhecem a matança clínica e industrial dos campos de concentração europeus. Os facões picam os corpos como outrora cortavam a relva pela mão dos escravos que agora só querem retaliação. Os soldados da ONU irão intervir no massacre? 

− Não somos pacificadores, isto é, não estamos aqui para manter a paz. Estamos aqui para observá-la e monitorá-la. Só podemos disparar em legítima defesa. E a utilização das metralhadoras requer autorização prévia do comando subordinado ao Conselho de Segurança. 

A Organização das Nações Unidas protege os direitos humanos: os 40 europeus que haviam se refugiado na ETO logo são levados ao aeroporto de Kigali sob forte escolta da Legião Francesa. A Organização das Nações Unidas vela os detritos humanos: os tutsis sitiados na ETO ficarão sob a proteção dos soldados até que o alto comando faça os militares bater em retirada. Então, os rebeldes poderão cruzar os portões para cumprir os desígnios da rádio hutu: 

− Quem vai encher os túmulos vazios? As baratas estão escondidas nas igrejas! As baratas estão escondidas nas escolas! 

Mas não, não: os soldados irão intervir no massacre. Os cachorros ruandeses – o manual do colonizador não especificou se os cães seriam tutsis ou hutus – começam a devorar os cadáveres. “Eis um risco gravíssimo de contaminação!” O capitão pede ao padre, o responsável pela ETO, que acalme os tutsis ainda vivos. “Vamos atirar nos cães. Eles não podem continuar a devorar os mortos. Para que não haja pânico, avise a todos que, por ora, os tiros serão amigos”. Enfurecido diante de um mundo que seu Deus parece ter abandonado, o padre prega ao capitão não o Sermão da Montanha, mas o Sermão da Estepe: 

− Vocês não têm permissão para atirar apenas em legítima defesa? Por que então pretendem alvejar os cães? Acaso eles lhes fizeram algum mal? Os cadáveres não podem mais comer, mas os cachorros ainda sentem fome – os cães que vocês querem matar e os cachorros humanos. Os cães não sabem que estão comendo seres humanos. Mas os tutsis sabem que serão devorados.

O clérigo tenta romper a inércia da ONU de todas as formas. Jornalistas já não se interessam pelo destino dos tutsis. “Afinal, o que há de novo em uma guerra civil africana?” Mas as câmeras se põem a postos quando o padre revela que há europeus na ETO. Enquanto Ruanda sangra aos olhos indiferentes do Ocidente, a Bósnia ariana recebe as forças de intervenção das Nações Unidas. Uma jornalista inglesa apresenta o critério de seleção das notícias mundo afora: 

− Sempre que eu via uma mulher bósnia, uma mulher branca, eu sentia que ela poderia ser minha mãe. Aqui em Ruanda são só africanos. 

Mas a repórter ainda tem tempo para se armar com o microfone e transferir o ônus do genocídio para o capitão inerte da ONU: 

REPÓRTER: O senhor qualificaria as ações da maioria étnica hutu como um genocídio? 

CAPITÃO (belga) DA ONU: (Hesita e gagueja antes de falar): Não sei exatamente, seria preciso quantificar as mortes. De qualquer forma, estamos aqui para observar a paz. 

A paz entre os cadáveres – e o cães. 

REPÓRTER: Mas o senhor sabe que, se estivermos diante de um genocídio, a ONU tem a obrigação de intervir... (As reticências tentam apresentar ao leitor e potencial espectador de Tiros em Ruanda a interrupção abrupta da entrevista por conta do punho do capitão contra a câmera.) 

Mas ainda há tempo para agir: enfim o capitão recebe ordens de seu alto comando. “É hora de partir, padre”. Se o militar se lembrasse das aulas de catecismo, teria uma citação evangélica na ponta da língua para fazer com que Jesus Cristo caminhasse não sobre as águas, mas sobre os corpos de Ruanda: 

− É hora de partir, padre. Deixemos que os mortos enterrem os mortos. 

Mas ainda há tempo para suplicar: um representante tutsi se dirige ao capitão da ONU com uma carta. “Um último pedido, capitão”. 

− Nós, refugiados tutsis da Escola Técnica Oficial, suplicamos aos soldados das Nações Unidas que nos fuzilem. Será muito mais rápido e indolor do que morrer sob os facões hutus. Por favor, matem primeiro nossas crianças, poupem-nas do sofrimento! 

A câmera dá um close no rosto do capitão belga. 

Os tutsis revisitam a descoberta dos prisioneiros de Auschwitz: em campos de concentração e de refugiados, a morte deixa de ser uma temeridade. A morte redime. 

A câmera continua a dar um close na máscara do capitão da ONU. 

O último pedido dos condenados ruandeses não poderá ser realizado. Afinal, as Nações Unidas não empregam assassinos. Monitorar a paz implica não fazer a guerra. Monitorar a paz implica terceirizar a guerra. O capitão belga não fará as pazes com o passado imperialista de sua nação. Não haverá tiros de misericórdia em Ruanda. 


*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será lançado no dia 20 de abril, às 18h, na livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, ao lado da estação Brigadeiro do metrô. Link com mais informações:http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2013/03/lancamento-do-livro-o-evangelho-segundo.html. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. 

Dedico este texto à minha querida amiga Vânya Tsutsui, que neste momento trabalha em Ruanda para que tutsis e hutus convivam pacificamente apesar da Lei de Talião que o colonizador europeu lhes legou.
 

Estudar, vigiar e punir 'Entre os muros da escola'

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21901&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior_Especial__05052013


Estudar, vigiar e punir 'Entre os muros da escola'

Em uma escola da periferia parisiense, os vestígios do colonialismo francês se fazem presentes. Há adolescentes de vários países da África, do Oriente Médio e da Ásia. O professor de francês (branco) tentará ensinar aos alunos a língua de Voltaire e Rousseau, a língua do Iluminismo. No filme 'Entre os muros da escola' (2008), de Laurent Cantet, é preciso estudar, vigiar e punir.

Início do ano letivo Entre os muros da escola (2008), filme dirigido por Laurent Cantet. Título nada gratuito: é preciso estudar, vigiar e punir. Em uma sala de aula de uma escola da periferia parisiense, os vestígios do colonialismo francês se fazem presentes. Adolescentes de vários países da África, do Oriente Médio e da Ásia. O professor de francês (branco) tentará ensinar aos alunos a língua de Voltaire e Rousseau, a língua do Iluminismo. 

Como entender o projeto das Luzes sem mencionar o papel fundamental que a educação teria para a transformação da humanidade? O problema é que, via de regra, as luzes dos holofotes precisam conviver com as sombras que se insinuam. Que fazer com os povos “bárbaros” que não tiveram o bom quinhão de pertencer originariamente aos domínios franceses? Ora, é preciso colonizá-los, isto é, educá-los. 

No princípio eram os nomes dos alunos. “Vocês devem se apresentar uns para os outros”. Uma aluna árabe e espirituosa interpela o professor: 

− E quanto ao senhor? O senhor não vai nos dizer seu nome? Por que só nós precisamos nos apresentar? 

O processo de descolonização que se aprofundou após a Segunda Guerra trouxe à tona a percepção de que a diferença precisa ter voz. Os soldados coloniais não ajudaram os aliados a derrotar a eugenia de Hitler? Sendo assim, por que a civilização europeia continua a manter o etnocentrismo como uma de suas bases? Sem ter efetiva consciência do pano de fundo histórico que alicerça sua colocação, uma aluna negra interroga o gramático francês: 

− Professor, por que os nomes que o senhor utiliza nunca são africanos ou árabes? Por que sempre temos que ler algo sobre Bill ou Jean? 

Se o professor tivesse consciência do papel social a que é relegado, os muros da escola desvelariam a sala como mais uma cela de aula. Professor e carcereiro. É preciso levantar o braço para falar, é obrigatório ter autorização para ir ao banheiro, é rotineiro aprender tópicos anacrônicos e ossificados que não dialogam com as mudanças sociolinguísticas do francês pós-colonial: 

− Professor, se ninguém mais usa o imperfeito do subjuntivo para falar, por que nós estamos aprendendo isso? Ninguém fala assim. E por que o senhor nos recrimina quando falamos gírias? Por acaso os franceses não vão ao banheiro? Os senhores sempre defecam? Os senhores nunca cagam? 

Pedagogia do cárcere: o processo de ensino também fica emparedado Entre os muros da escola

A escolha do professor de francês como protagonista – ou pior, anti-herói – é certeira. A língua discrimina a nacionalidade, a classe social, o orador docente e os entediados ouvintes discentes. A língua conjuga o poder. Mas o contexto pós-colonial da segunda metade do século XX começa a questionar e a embaralhar os papeis hierárquicos antes nitidamente demarcados. Pais e alunos participam dos conselhos escolares. Para que o poder (escolar) continue a (re)produzir suas advertências e expulsões, é preciso ouvir o que o aluno tem a dizer em legítima defesa. Como muitos diretores e professores fazem questão de frisar, aluno, etimologicamente, é aquele que não tem luz – “a”, não, “luno”, luz –, aquele que, então, precisa aprender. Ainda que a pedagogia democrática postule o respeito à alteridade como um de seus princípios, será que a escola ilhada entre seus muros consegue efetivamente ressignificar e confrontar os processos de exclusão e discriminação? Enunciar que o ensino não é mais o vértice do processo pedagógico antes centrado no professor para falar sobre o processo de ensino-aprendizagem que passa a envolver os educandos na construção das práticas escolares realmente questiona de maneira radical a política hierárquica da instituição? Quando o diretor vai à cela de aula para apresentar um novo estudante à classe, todos precisam se levantar. É bem verdade que o diretor precisa minimamente se explicar, “pois o fato de vocês terem que se levantar não é sinal de humilhação ou de submissão, mas de respeito ao novo colega”. Mas a assimetria das posições permanece. Uma efetiva preparação e conformação para a realidade excludente que os muros da escola só fazem ressoar. 

O filme do diretor Laurent Cantet, nesse sentido, esgarça a ferida e aponta uma série de limitações para a implementação da democracia escolar que a pedagogia da alteridade pretende estabelecer. Ora, seria preciso derrubar os muros da escola para que a instituição fosse vista não como uma mônada fechada em si mesma, como um organismo que se constitui com suas próprias práticas, mas como um microcosmo que articula o e dispõe do conhecimento básico dos cidadãos: o que estudar, como estudar, como se portar – e ter que obedecer. Os estudantes bem sabem que não têm voz na escolha dos livros com que precisam se digladiar. Seus hábitos e conhecimentos locais são simplesmente abstraídos e preteridos pela escola. A educação industrial padroniza o conteúdo do ensino e a obediência discente. Tanto pior, então, se o aluno da periferia parisiense não se parecer com um francês considerado típico. 

Entre os muros da escola se aparta da idílica filmografia escolar hollywoodiana. Ao mestre com carinho: alunos rebeldes e desordeiros encontram um professor idealista e engajado que promove uma verdadeira revolução em sua sala de aula muitas vezes contra o conservadorismo da direção. O voluntarismo da indústria cinematográfica norte-americana é questionado frontalmente. Não se trata apenas de projetar a mudança institucional com um mero apelo à vontade e ao ímpeto. A inércia social não será combatida apenas com o amor à docência. Os alunos da periferia parisiense (e brasileira) já não veem sentido em suas aulas. A escola praticamente não lhes diz respeito. A pedagogia pretende insuflar democracia entre os muros escolares, mas em grande medida ainda não se deu conta de que a sala de aula continuará a reproduzir as clivagens sociais se o âmbito da mera enunciação não for superado. O educando aprende e entende que a diversidade étnica e cultural é uma conquista histórica fundamental que tenta romper com o etnocentrismo. Ao sair da escola, no entanto, a polícia promove mais uma batida e faz com que os alunos se prostrem diante dos mesmos muros escolares que há pouco lhes haviam prometido – e usurpado – liberdade, igualdade, fraternidade e, sobretudo, respeito à diversidade. 

*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será lançado no dia 20 de abril, às 17h, na livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, 509, ao lado da estação Brigadeiro do metrô. Link com mais informações:http://subsolodasmemorias.blogspot.com.br/2013/03/lancamento-do-livro-o-evangelho-segundo.html. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. 

Saturday, 4 May 2013

A esfinge, o BNDES e as “campeãs” que nos devoram

correio da cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8329:manchete030513&catid=34:manchete

A esfinge, o BNDES e as “campeãs” que nos devoram

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ESCRITO POR LUIS FERNANDO NOVOA GARZON   
SEXTA, 03 DE MAIO DE 2013


Se Petrobrás, Vale, JBS, Gerdau, Odebrecht, BR-Foods e Fíbria são exemplos de “campeãs nacionais”, presume-se que tornem seu país-sede igualmente campeão. Nos EUA, a transfiguração do particular em universal fez escola e um lema de um dirigente da GM, nos anos 50, seria exemplar nesse sentido: "What's good for GM is good for America”. No Brasil, em operação discursiva similar, décadas depois, paixões e os interesses privados das “campeãs” são transmutados em virtudes públicas da nação. Na prática, o caminho delas foi reverso.

Primeiro tomaram forma em meio aos anos de desmonte e privatização. Depois, dos pedaços do país, foram se fazendo inteiras. Tanto mais sólidas quanto mais débeis os mecanismos de controle e regulamentação social e quanto mais capturadas as instâncias decisivas do Estado. Agigantadas por meio de sucessivos e inapeláveis apequenamentos, eis que agora são vórtices de multiplicação e valorização de capital além fronteiras.

As multinacionais “nacionais” campeãs trazem inscritas em si a fórmula do consenso básico entre as frações do bloco no poder, em variável proporção de associação entre capitais internos e estrangeiros, que chamam para si o papel de catalisadores dos interesses nacionais, em um continuum grandes empresas-Estado. O acordo por cima depende do grau de intensividade e extensividade das “fugas para frente” do capitalismo brasileiro, em que se conjugam formas renovadas e permanentes de expropriação no plano interno e externo.

Na fase inicial da crise, a partir de 2008, as imbricações e opções se clarificaram e o Governo fez uso de todas as formas de ferramentas disponíveis para sustentar um padrão de acumulação determinado. Crédito e investimentos públicos vieram em socorro dos setores de celulose, mineração e siderurgia básica, indústria de carnes e derivados, gás e petróleo e setores de infraestrutura. Para consolidar “empresas-líderes” justamente nesses setores, fusões e aquisições foram viabilizadas pelo BNDESPAR, que teve seu ativo turbinado no período, passando de 25 bilhões de reais em 2007 para 125,8 bilhões de reais em 2011. O último dado disponível, referente ao ano de 2012, indicava que, dos 74,5 bilhões de reais da carteira total de ações do BNDESPAR, 84% estavam concentrados em apenas 10 companhias e 89% em somente cinco setores: petróleo, mineração, energia, frigoríficos e celulose.

Com relação aos desembolsos financeiros, o BNDES expandiu ainda mais o direcionamento de crédito para empresas de grande porte. O pico foi o ano de 2009, quando mais de 80% dos seus empréstimos foram canalizados para um universo de até 50 empresas e isso, ressalte-se, num montante de 137,4 bilhões de reais desembolsados naquele ano, em comparação com os 64,9 bilhões de 2007. O quadro pouco se altera em 2012, em termos relativos ou absolutos: dos 156 bilhões de reais desembolsados, 68% foram canalizados para as grandes empresas. (BNDES, 2013).

Declarações recentes do presidente do BNDES, no sentido de que a política de priorização da competitividade dos grandes grupos nacionais é uma “agenda concluída”, podem sugerir atritos na definição da política de financiamento do Banco. Na verdade, estamos diante de um processo de reacomodação de interesses, entre grupos capitalistas de distintas extrações, que se explicita na transição dos perfis das três políticas industriais adotadas desde 2003. A Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior–PITCE (2003-2008) pôs-se na contramão dos padrões de competitividade definidos pelo mercado, selecionando setores de ponta e com maior “capacidade inovacional”: semicondutores, softwares, bens de capital e fármacos. A PITCE tornou-se então meramente protocolar e discursiva, com exceção para os bens de capital voltados para o aumento da produtividade do agronegócio e dos setores de mineração e energia.

Em 2008, já com a crise instalada, surge a Política de Desenvolvimento Produtivo-PDP (2008-2011), que passava a priorizar as “empresas-líderes”, desde então enquadradas automaticamente como indústrias extrativas ou de base. Coutinho, em avaliação dos motivos que levaram o governo e o BNDES a sustentar essa nova política, afirmava ser imperiosa a aceleração do crescimento das exportações, para que se alcançasse um “superávit comercial mínimo”, de modo a contrabalançar “déficits estruturais”; assim qualificados por serem intocáveis as prerrogativas dos credores financeiros e dos demais beneficiários de políticas macroeconômicas restritivas (metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante). O reconhecimento dessa condição imperativa, prossegue Coutinho, “implica a priorização da política de competitividade”. A confissão se completa ao nominar os setores-alvo da agenda da PDP: “São exemplos desse tipo de agenda a grande cadeia de petróleo e gás, a petroquímica, vários agronegócios, carnes e proteínas, celulose e papel e mineração” (COUTINHO, 2010, p. 29).

Se tal agenda foi concluída, como afirmou o presidente do BNDES em sua mais recente declaração, podemos depreender que o BNDES terá menos peso na definição das estratégias conglomeradoras e da própria concorrência entre oligopólios nacionais-internacionais?

O Plano Brasil Maior/PBM (2011-...) já indicava traços de uma recomposição feita mais de acréscimos que de exclusões. O PBM parte da premissa de que precisa favorecer a “integração entre os setores público e privado” - leia-se a subsunção do primeiro no segundo. Os três conjuntos de medidas propostas pelo PBM (redução dos custos do trabalho e do capital; estímulo do desenvolvimento das cadeias produtivas; estímulo às exportações e defesa comercial) confirmam a equação. Mas, tanto na abrangência do Plano como nas medidas operacionais, são recuperadas metas antes colocadas na PITCE. Haveria uma nova premência colocada para a política industrial brasileira: “(...) o adensamento da produção local e do conteúdo tecnoló­gico das cadeias produtivas”.

As “campeãs” de modo algum estão excluídas do PBM, já que o plano prevê medidas e programas ainda mais detalhados para o aumento da produtividade das cadeias produtivas competitivas e o aprofundamento de sua internacionalização. Fica nítido o esforço de combinar expansão com capilarização, a partir da exigência do aumento do conteúdo nacional de produtos e componentes. Acopla-se ainda ao PBM o Programa Integrado de Logística (PIL), que se propõe a fatiar e ofertar aos investidores privados os setores de infraestrutura mais rentáveis, além de sua financeirização respectiva, através de debêntures e garantias ilimitadas do BNDES.

Põem-se em ação esforços combinatórios para efetivar a inter-institucionalidade de um Estado desigualmente privatizado e a inter-setorialidade de uma indústria desigualmente desmontada. A manutenção de uma taxa média de lucro e a formação de novos mercados (marketmaking) é o que permite a pacificação dos estratos burgueses nacionais e/ou estrangeiros e a convergência consequente para garantir a anuência ou o apoio passivo da população trabalhadora.

A burguesia interna brasileira procura, concomitantemente, resolver-se (entre seus segmentos e frações aliadas) e ainda ocupar lugar vantajoso na concorrência com seus pares estrangeiras na disputa por mercados e territórios externos. A conta desse rearranjo, intra e intercapitalista, vai sendo paga com o corte e limitação dos recursos para a seguridade social e a educação, com a continuada flexibilização dos direitos trabalhistas, com o sucateamento dos bens públicos e com a brutal mercadorização e supressão de territórios, biomas e comunidades.

Se são os pactos político-empresariais que espelham agora o “projeto de Nação”, como observamos no Plano Brasil Maior ou no Programa Integrado de Logística, é porque a palavra ‘nação’ tornou-se minúscula para dar lugar a um espaço ilimitado de valorização de capitais. Em meio ao vácuo de projetos coletivos, o coro particularista dos grupos mais internacionalizados e financeirizados vai aumentando o tom.

Ressaltem-se os apelos à abertura externa incondicional, em especial com a Aliança Transpacífico (TPP), uma zona tricontinental de livre-comércio, que procura impor um regime de soberania absoluta dos investimentos privados. Novas e mais profundas privatizações são exigidas. Alta dos juros como prova de acefalia governamental. Cumprimento estrito das metas de inflação e disciplinamento dos gastos públicos para garantir a estabilidade, não dos preços, mas das posições financeiras dominantes.

Por isso deve ser tarefa prioritária a análise e o desmascaramento das formas e funções do Estado - coetâneas com a dinâmica variante da acumulação capitalista - por grupos de pesquisa, Institutos e Fundações referenciados no pensamento crítico, em conjunto com movimentos e organizações sociais que não abdicaram de um horizonte anti-sistêmico de atuação. A meta é expor compromisso institucionalizado entre frações e segmentos de classe na regência de uma trajetória de desenvolvimento de seu exclusivo interesse. A partir dessa demarcação, poderemos ouvir as vozes nas suas respectivas bocas, franqueando o reconhecimento de novos sujeitos coletivos.

Referências bibliográficas
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Desempenho do BNDES em 2012. Rio de Janeiro: BNDES, 2013.
COUTINHO, L. A. construção de fundamentos para o crescimento sustentável da economia brasileira. In: ALEM, A. C., GIABIANGI, F. O BNDES em um País em Transição. Rio de Janeiro: BNDES, 2010. p. 17-38.

Luis Fernando Novoa Garzon é professor da Universidade Federal de Rondônia. E-mail: l.novoa(0)uol.com.br